28/07/2019 às 08h30min - Atualizada em 28/07/2019 às 08h30min

Por que ele compartilhou aquilo?

ALEXANDRE HENRY

Há poucos dias, em um grupo de mensagens da minha família, foi postado um vídeo mostrando uma ação contra bandidos em um porto, supostamente para apreensão de entorpecentes. O vídeo era acompanhado das seguintes mensagens: “Enquanto isso, olha o que vem pela Baía de Guanabara, sem burocracia. Apreensão pela Marinha!” e “Estatuto do desarmamento pra quem?”. Eu assisti à cena e, no mesmo instante, notei que não se tratava de uma operação na Baía de Guanabara, sendo, possivelmente, uma encenação. A lancha da polícia tinha a inscrição “FURA”, o carro que estava perto da água não era um modelo comum no Brasil e, apesar das dezenas de disparos, os vidros do carro continuavam intactos. Uma rápida pesquisa na internet confirmou que se tratava de uma encenação, feita em outro país para a comemoração de uma data festiva.

Mas, por que a pessoa que mandou aquilo para o grupo, apesar de ser experiente e inteligente, não conseguiu perceber o que era óbvio, ou seja, que o vídeo não era um enfrentamento da Marinha brasileira com traficantes fortemente armados? Para responder a essa pergunta, bem como para entender a proliferação das chamadas “fake news” (notícias falsas), você precisa ler um pouquinho sobre os chamados “vieses cognitivos”. Há inúmeros livros sobre o tema, como “Ciência e pseudociência: por que acreditamos naquilo em que queremos acreditar”, de Ronaldo Pilati (Editora Contexto). Mas, leia só o resumo sobre o tema que há na Wikipédia e você já entenderá um pouco do assunto.

O ser humano está sujeito a várias tendências que podem afastá-lo da razão, do pensamento lógico, levando-o, muitas vezes, a tomar decisões contrárias aos fatos e às evidências. Cada uma dessas tendências é chamada de “viés cognitivo” e os nomes mudam um pouco de estudo para estudo. Existe, por exemplo, o chamado viés de percepção seletiva. Imagine que você é gerente de um supermercado e que desconfie da honestidade do João, empregado que trabalha no estoque. Certo dia, você conta as garrafas de whisky no estoque e fica observando os empregados do setor. No final do dia, você nota que está faltando uma garrafa e tem certeza de que foi o João, porque ele saiu mais cedo alegando um suposto problema pessoal, estava calado e não levantou os olhos para você ao se despedir. Você tinha uma expectativa de que João era o bandido do setor e essa expectativa fez com que você percebesse apenas os eventos daquele dia que casavam com o que você esperava. Tudo bem que João não estava carregando nada quando deixou o supermercado, que realmente a esposa tinha ligado contando sobre o resultado de seu exame de câncer e que o Pedro, outro funcionário do setor, tinha saído do supermercado com uma mochila cheia, sendo que, de manhã, ele tinha chegado ao trabalho com uma mochila vazia. Você não viu nada disso, porém, por conta do viés de percepção seletiva.

Muito conhecido também, e mais ou menos na mesma linha, é o viés de confirmação. Você tem no ex-juiz Sérgio Moro um ídolo e, ao se deparar com a divulgação de mensagens com conversas que poderiam indicar a falta de imparcialidade dele, você vai buscar tudo quanto é informação que possa validar a sua expectativa de que aquelas mensagens são falsas e ele sempre agiu dentro da lei. Tudo o que puder questionar essa sua crença é deixado de lado: você não lê, não vê e não ouve. Mudemos de lado. Você acha que o Lula é quase um santo e que tudo contra ele foi armação. Da mesma forma, você vai procurar tudo quanto é informação ou teoria que confirme essa sua crença, ignorando qualquer dado contrário ou acreditando em teorias que tentem desacreditar fatos que contradigam sua fé de que Lula é inocente.

Esse é o chamado viés de confirmação e, em tempos de redes sociais e bolhas da internet, aceleram o processo de polarização social. Dentro da bolha da esquerda ou da direita, você terá uma avalanche de informações que confirmam tudo aquilo no qual você acredita, mesmo que um mínimo de razão diga exatamente o contrário. Aí, você acaba se tornando parte dessa engrenagem, começando a distribuir conteúdos falsos na crença de que são verdadeiros.

Como combater isso? Adotando como comportamento padrão o ceticismo ou então se valendo do princípio da falseabilidade, como propôs o austríaco Karl Popper há várias décadas. Mas, não precisa ir tão longe. Basta, no fundo, ter o mínimo de bom senso e procurar fugir das bolhas das redes sociais. Com isso, você já afastará boa parte dos vieses cognitivos, diferenciando com mais clareza o que é real do que é falso.


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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