07/07/2019 às 10h30min - Atualizada em 07/07/2019 às 10h30min

Tô fraco

WILLIAN H STUTZ
“No reparar, meu monstro se expôs à claridade. Uma pobre Cocár, Galinha-d’angola, caída no quintal. De certo não encontrou saída e ali ficou para passar a noite. Aí começou outra batalha. Esta real, longe de meu imaginário sem peia ou poita, solto que nem passarinho”
 
Tem dia que de noite é assim. Expressão jocosa, que define muito bem as surpresas, os sustos e mudanças de rumo que nossa vida sofre de hora pra outra. Pensamos ter domínio do em volta. Que nada! Cada “tic” do relógio pode nem esperar o “tac” que se segue na cantoria do marcador de um tempo por nós inventado. Bem, pelo menos a medição dele é coisa humana. Como seria bom se o marcador fosse o que sentimos. Deu fome? Come. Deu Sono? Dorme. Tristeza? Chora. Melancolia? Cisma.

O viver seria outro, sem a correria dos compromissos marcados. Mas é fato que teríamos que aprender a lidar com tanta vastidão de tempo. Alguns iriam à loucura. O coelho de Alice seria um.

Pois fui me deixar levar por um lapso de a nada me prender. Durou pouco. Olhe aí a medida de tempo nos conduzindo como marionetes do destino. Se durou pouco, foi quantificado e deixou de ser o simples. Epistemologia devaneica de quem tem o tempo a sobrar. Opa, sobrar não! A aproveitar com gosto, pois cada pequena fração é de valor inestimável.

Em um desses perdidos que a paz nos permite, saí a caminhar pela rua em noite de lua cheia. Há muito não me permitia andança noturna. Um tanto por preguiça, outro tanto por receio. Se as ruas não são mais seguras nem com sol quente, imagine na penumbra à meia-luz de lua.

Assim me vi a procurar a ermo. Deixar o pensar livre, nada de correria, passo lento, atenção à noite e ao seu abraçar.

Após um longo percorrer, sem Garmin a nada medir, voltei pra casa.

Fui recebido por Princesa, a gata. Para ela, mesmo sem controlar o tempo, já havia passado da hora de comer e, com seu resmungo miado, me trouxe de volta ao mundo dos horários.

Resolvi não acender luzes, pois o luar me seguia companheiro. Conhecedor da posição de tudo em casa havia pouca chance de esbarrar em algo. Esqueci de avisar tamborete que, por pura brincadeira, só pode ser, se jogou com tudo em dedo de meu pé. Nada que uma xingação não resolvesse.

Segui rumo ao quintal. Hora – tempo – de aguar horta. Dedão ainda reclamando dor da topada.

No abrir da torneira mangueira girou que nem cobra no capim, jato d’água em esguicho. Água me pegou em cheio no peito. Outro chicotear. Frio do molhar me fez mais ligeiro e agarrei serpente de borrocha pelo pescoço. Dominada, depois de mitológica batalha inventada, mirei as plantas. Já sem o susto do dedão e aproveitando o frio da molhança, respirei relaxado. Durou pouco. De um canto do muro rente ao chão um vulto redondo como bola, em grito estridente e flafarejo de asas, veio ao meu encontro. Sem entender o que era, pensei em um dragão ou nórdico Sleipnir, com suas oito patas a me atacar. Susto grande encostei-me à parede. Deixa passar trem! Só não joguei chapéu porque não o tinha na cabeça.

No reparar, meu monstro se expôs à claridade. Uma pobre Cocár, Galinha-d’angola, caída no quintal. De certo não encontrou saída e ali ficou para passar a noite.

Aí começou outra batalha. Esta real, longe de meu imaginário sem peia ou poita, solto que nem passarinho.

E tirar a danada pra fora? Tentei na unha, mas me deu baile e fintas desconcertantes. Cerca daqui, toreia de lá, relutava em não querer se deixar agarrar. O jeito foi tanger a danada casa adentro buscando a porta da sala. Lógico que ela não entendeu minhas intenções e se pôs a voos rasos por sobre todos os móveis, não sem antes ter quebrado nossas lixeiras de recicláveis enfileiradas no quintalzinho. O de plástico ficou sem tampa, o de vidro, retorcido.

Essa anarquia gastou tempo. Só depois de muito tentar consegui levar a angola, sempre aos berros escandalosos, para fora de casa.

Vizinhos acenderam luzes, mas nenhum veio conferir. E a galinha, agora Narceja, foi dormir com seu bando.

Cansado, a casa cheia de penas carijós, me deixei ficar arfando de costas no chão frio. Princesa, a gata? Do alto do muro, em costumeira calma felina, parecia rir de mim.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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