23/06/2019 às 08h00min - Atualizada em 23/06/2019 às 08h00min

As portas que você abre

ALEXANDRE HENRY
Naquele dia, foi bem difícil manter o meu propósito de não mentir para a minha filha. Estávamos chegando ao laboratório, em virtude de exames pedidos pelo médico, quando ela percebeu o perigo. A voz fininha e já antecipando o choro foi de partir do coração: “Papai, o que nós estamos fazendo aqui? Eu não vou tirar sangue, né?” – ela me perguntou ainda no carro. Eu poderia ter inventado um monte de coisas, mas tinha decidido, desde antes dela nascer, que não mentiria para a minha filha. “Meu bem, o papai vai tirar sangue, mas você vai também” – confessei. O arremedo de choro virou um berreiro daqueles, que só parou uns dez minutos depois de todo o procedimento terminar.

A porta da mentira foi uma porta que eu nunca quis abrir, pois sempre soube que por ela passam tanto aquelas mentiras “do bem” quanto outras sem justificativa moral alguma. O hábito de não dizer a verdade vicia. No começo, você mente por uma boa causa. Depois, a causa já não é tão nobre assim. Quando você percebe, está mentindo para tentar facilitar qualquer coisa na sua vida, por mais banal que seja.

Assim como há a porta da mentira, existem infinitas outras que a gente tem que tomar muito cuidado e pensar bastante antes de abrir, pois não vai conseguir fechar aquela passagem sempre que quiser. Eu penso muito nisso em relação ao meu trabalho e ao nosso país. A porta da pena de morte, por exemplo. Sempre digo que há, sim, criminosos que mereciam a morte. Se possível, de uma forma bem cruel, bem dolorida, para sentir o quanto causar dor aos outros é ruim. Porém, abrir a porta da pena de morte para fazer passar por ela o criminoso que seria merecedor daquele castigo também significa abrir a porta para a passagem de inocentes, de pobres sem um bom defensor, de miseráveis que não cometeram os crimes que justificarão a pena capital, enfim, de um monte de gente que vai morrer de forma injusta. É por isso que eu sempre fui contra abrir a porta da pena de morte, muito mais do que por qualquer pensamento cristão que eu possa ter. Os benefícios da vingança social não compensariam as injustiças de um sistema reconhecidamente falho na persecução criminal.

O mesmo vale para a tortura cometida por alguns maus policiais, que não representam a grande parcela dos bons profissionais dessa área. Nesse caso, nunca fui a favor de nenhum tipo de agressão, pois acredito que só há legitimidade na atuação policial para combater um comportamento fora da lei se a lei for respeitada por quem está combatendo esse mau comportamento. E a lei, como eu, você e todo mundo sabe, não permite espancamentos de nenhuma natureza. A pena é a perda da liberdade, nada mais do que isso. Claro, você pode pensar na economia de trabalho da polícia ao atalhar a investigação arrancando uma confissão à força. Mas, a porta da tortura bem intencionada, se é que essa expressão não representa um oxímoro de primeira grandeza, é a mesma por onde passam espancamentos com objetivos bem distintos de simplesmente solucionar um crime.

Sim, a ideia é chegar aonde você imaginou. Falo de toda essa discussão sobre a condução da operação Lava Jato e da divulgação de mensagens atribuídas ao ex-juiz Sérgio Moro. Eu acompanho esse caso de perto e até agora não formei a minha convicção sobre a veracidade ou não das conversas atribuídas ao ex-magistrado, muito menos sobre a inadequação ou não do que ali foi tratado, pois precisaria primeiro ter certeza que foram deles as palavras divulgadas e, mais do que isso, precisaria analisar o contexto em que foram proferidas. Portanto, não julgo o que o ex-juiz fez, seja por não ter informações suficientes para tanto, seja por vedação legal ou porque prefiro guardar meus julgamentos apenas para mim mesmo. Falo, pois, em tese. E, em tese, eu digo que não se pode abrir a porta da parcialidade no comportamento de nenhum juiz, por mais louváveis que sejam as suas intenções. No momento em que se aceita que um magistrado penda para um dos lados, por mais nobre que seja a justificativa, a porta que se abre é a mesma pela qual vão passar quebras de imparcialidade nada nobres, é a mesma pela qual passarão comportamentos inadequados de outros juízes, promotores e advogados de defesa.

Por essas e outras, não compensa abrir algumas portas. O que você pensa ser uma exceção bem-intencionada pode, amanhã, virar uma regra que se voltará contra você mesmo ou contra valores sociais importantes. Melhor, pois, optar por um caminho mais longo, mas pelo qual você sabe que realmente só passará o que é bom.



*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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