18/06/2019 às 08h23min - Atualizada em 18/06/2019 às 08h23min

Cheque especial, fique livre dessa armadilha

ALAOR DO ROSÁRIO BARBOSA | JORNALISTA
O correntista de qualquer um dos 5 maiores bancos do país que ficar devedor em cerca de R$ 1.000 no cheque especial, na média mensal, chegará ao fim de 12 meses pagando mais de R$ 1.500 de juros ao banco e ainda continuará devendo os mesmos R$ 1.000 iniciais. Ou seja, já terá pago duas vezes o valor inicial do débito e o saldo devedor continuará sendo o mesmo.

Com esse mesmo dinheiro, o consumidor poderia comprar uma geladeira, televisão ou celular e ainda teria troco (dependendo do modelo escolhido, é claro).

Isso se deve às elevadíssimas taxas de juros praticadas pelos bancos brasileiros, em especial no cheque especial. Conforme dados do Banco Central, na última semana de maio as taxas dos cinco bancos estavam acima de 12% ao mês, num período em que a inflação estava abaixo de 0,4% ao mês e a taxa Selic em 6,5% ao ano.

O Itaú tinha taxas médias de 12,47% (309,88% ao ano), o Bradesco, de 12,19% (297,76% ao ano), o Santander, de 14,65% (415,92% ao ano), o Banco do Brasil, de 12,19% (297,56% ao ano, igual à do Bradesco), e a Caixa Econômica, de 11,78% (280,41% ao ano).

O Banco Central divulgou no final de abril estudo mostrando que os maiores usuários do cheque especial são os mais pobres. Cerca de 44% dos usuários têm renda de até 2 salários mínimos e 33,5% até cinco salários mínimos. Esses dois segmentos são responsáveis por 77,5% do universo dos usuários do cheque especial, segmentos que têm os juros médios mais elevados entre as 23 operações bancárias acompanhadas pelo BC. O mesmo estudo mostrou que o tíquete médio de utilização do cheque especial era de R$ 1.310 em dezembro de 2018, o que representa um custo de mais de R$ 100 ao mês.

Ao contrário do que os bancos afirmam, o BC sustenta que os bancos têm elevadíssimos ganhos com o cheque especial. No relatório divulgado em abril, o BC afirma: “De forma geral, o cheque especial tem participação modesta na carteira de crédito do sistema bancário, com menos de 1% do total, mas foi responsável por aproximadamente 10% da margem de juros líquida de PCLD gerada pela carteira de crédito total do sistema bancário”. Traduzindo, menos de 1% da carteira dos bancos gerou cerca de 10% de margem (lucro) nas operações de crédito.

Os bancos alegam que essa é uma operação de alto risco, pois não há garantias envolvidas. Mas a diretoria do BC considera que a situação atual é muito desfavorável ao correntista e está em processo de revisão do mecanismo. Ainda não se sabe quais serão as medidas a serem tomadas pelo governo. Em outros tempos a solução seria baixar uma resolução definindo novos parâmetros para a operação. Mas as últimas diretorias do BC têm optado por outros caminhos e que podem gerar bons resultados.

A postura em relação às “maquininhas” de débito e crédito mostrou que criar condições para mais competição pode ser a melhor alternativa. Há cerca de cinco anos, o BC quebrou o duopólio nas máquinas de cartões e nos últimos anos diversos movimentos resultaram em mais concorrência e condições menos onerosas aos comerciantes. É possível que esse tipo de solução também seja adotada para a redução dos juros no cheque especial.

Enquanto essa mudança não vem, a melhor alternativa para o usuário do cheque especial é rever inteiramente a sua postura em relação a esse tipo de operação, reduzindo o seu uso ao mínimo possível. Muitos argumentam que não conseguem pagar todas as suas contas sem o cheque especial pois sempre “sobra mês no fim do meu salário”.

Os números mostram, porém, que a comodidade do saque a descoberto é uma armadilha que custa muito caro. Quem usa esse tipo de crédito com grande frequência pode se surpreender com o resultado se fizer as contas de quanto pagou de juros ao longo dos meses. E se não for possível cortar os gastos, para que caibam nos salários, a melhor solução é simplesmente buscar outras opções de financiamento, evidentemente que com custos mais baixos.
 


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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