04/06/2019 às 08h10min - Atualizada em 04/06/2019 às 08h10min

Bira, o cestinha

ANTÔNIO PEREIRA
Ubirajara Zacharias nasceu em Araguari, em 1919. Jovenzinho, sua família mudou-se para São Paulo. Lá, foi sócio do Espéria onde jogava no segundo time de basquete, chamado Azul. No Espéria se praticavam várias modalidades. João Havelange era titular no Polo Aquático. No basquete havia atletas famosos. Bira treinou futebol no Palmeiras, mas era muito longe para ele.

Depois que seu pai, Luiz Zacharias, faleceu, em 1935, sua mãe, Emília Elias Chaibub Zacharias montou, em Uberabinha, um comércio para os filhos Carlos e Bira. Luiz tinha deixado boa economia: 23 contos. Aqui morava o terceiro irmão, Nazir, comerciante. Adquiriram um ponto na “praça dos bambus”, do Hermógenes Chaves. Logo que o Bira chegou, com 17 anos, o Boulanger Fonseca foi atrás dele. Já o tinha visto jogar em São Paulo. Logo se esparramou que chegara um reforço paulista para a Associação Atlética Uberlândia-AAU. A rapaziada ia lá na loja conhece-lo. Detrás do balcão conheceu os atletas do basquete: Biron, Braerson, Zico, Hélio, Zé Hubaide, Geraldão, Rubico, João Maia e Adjardes. Esse grupo, mais o “reforço” do Bira formaram um grande time.

A loja era um pequeno atacado e enquanto o Carlos cuidava do balcão, o Bira saia com uma maletinha cheia de óleo Dirce, pó de arroz Lady, pedras para binga, linhas, tinta Guarany, brilhantina, baralhos, batons e ia vender na periferia. No primeiro ano, ganharam 57 contos. Bira ficou muito conhecido por causa do comércio e do basquete. Tinha outros amigos fora do esporte: Idelvan, Saltino, Paulo Torido, Rubens Pereira, Tute, Vila. Frequentava o Praia Clube, onde jogava futebol e basquete.  Frequentava também o Uberlândia Clube - que ficava na praça dos Bambus. Isso aí por 1935. Foi no final do ano que a Associação Atlética Uberlândia foi convidada para participar do Campeonato do Interior. Foi o Baby Barioni que convidou. A sede seria Monte Alto, SP. A AAU foi campeã. Bira tinha 17 anos, Zico, o mais velho, 27. Ampliaram a loja colocando material esportivo.

O segundo Jogos Abertos seria em Uberlândia. Os times que viriam: Minas Tênis Clube, Francana, o Espéria, e muitos outros. O Baby Barioni veio morar aqui e se juntou ao Boulanger para treinar a rapaziada. Uberlândia recrutou mais os seguintes atletas: Zenon, Adjardes, Paulo Carneiro, João Maia, Breno, Bruno e outros. O time base continuou a ser o campeão de Monte Alto. Subiu para 12 o número de cidades participantes, mas Piracicaba continuava a grande favorita. Uberlândia fez desfiles, festas, soltou foguetes e fez discursos. Ficaram para a final Uberlândia e Piracicaba.  O time de Piracicaba tinha o Edésio, da seleção brasileira. No dia do jogo, Edésio estava diferente, pálido, e isso chamou a atenção do Bira, que comentou com os companheiros que ganhariam essa. “Eles estão com medo. Vamos jogar alegres e descontraídos”. E ganharam: 27 a 21. Bira foi o cestinha. A quadra era na rua Santos Dumont, nos fundos do Bueno Brandão. Eduardo Segadães, construtor, deixou a quadra e os vestiários em condições de receber um campeonato. Havia mangueiras em torno da quadra. Arquibancadas e mangueiras se apinharam.  As mocinhas quando topavam com o Bira, gritavam: “Birinha! Birinha!”

A vizinhança da Casa Zacharias era, para cima, a loja de tecidos do Afrânio Rodrigues da Cunha e a Escolar, do Totó Marquez. Para baixo: A Cearense do Militão onde trabalhavam o Ananias  e o Archanjo  que, depois, tiveram suas lojas, depois, o Abrão Scwartzman, que tinha uma filha linda que foi namorada do Décio Tibery, em seguida vinha a loja da mãe do dr. Adib Jatene e, depois, o Banco de Crédito Real de Minas Gerais, cujo gerente era o Sandoval Guimarães.

No Natal, as lojas ficavam abertas até depois da Missa do Galo. Fechavam lá pelas 3, 4 horas da madrugada. Depois de fechada a loja, dona Emília chamava os meninos lá para os fundos com uma panelada de quibe, charutos, esfirras etc.

Veio o terceiro Jogos Abertos no ano seguinte, em Piracicaba. O principal adversário de Uberlândia montou um time enxertado com jogadores semiprofissionais paulistanos. Foi jogo tenso. Uma chuva pesada atrasou o início do jogo. A torcida não aluiu. No final, Uberlândia já vencendo, houve um lance livre que, batido, encerraria o jogo. Ao trilo do apito, a torcida invadiu o campo para agredir os uberlandenses. Em suas memórias, Bira, que era pequenino, registrou que Zé Hubaide, que era grande e muito forte, agarrou-o e levantou-o com um braço protegendo-o enquanto, com o outro, defendia-se dos arruaceiros.  

Foi o primeiro grande sucesso do basquete uberlandense.


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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