31/05/2019 às 10h02min - Atualizada em 31/05/2019 às 10h02min

Homem comum

MARIÙ CERCHI BORGES | PROFESSORA
O renomado escritor Philip Holt, com um respeitável histórico de premiações literárias, somou, à tantas outras já recebidas , a PEN FAULKER pelo seu livro “HOMEM COMUM” lançado no Brasil, em 2007 pela Companhia das Letras.

O que causou uma certa surpresa aos críticos de sua obra literária foi a diretriz pessimista que ele imprimiu ao personagem que centraliza a trama. Acredita-se que a chegada do autor aos setenta e três anos de idade explique, talvez, as angústias que ele depositou no personagem principal que, por ser um homem comum, não recebeu do autor, nem sequer, um nome. Descreve o personagem de forma depressiva chegando até a considerar a inutilidade de que foi o seu estar-no-mundo. Tal personagem, ao rememorar os erros cometidos no passado, sente desprezo por si mesmo, ironiza a velhice e a morte enquanto vai, aos poucos, remoendo-se em direção ao seu declínio. Nada do que este “Homem Comum” produziu na vida, sob a ótica da sua exigente retrospecção, valeu. Refugiando-se, após a aposentadoria, numa cidadezinha a beira mar, corroído pela inveja do irmão (a quem admira e ama), ele se afasta das pessoas encontrando na filha do seu segundo casamento, o seu único e verdadeiro vínculo afetivo.
A mudança para a cidade litorânea facilita-lhe reaver os seus dons artísticos, abrindo uma escola de pintura. Tal escola passa a ser frequentada por aposentados, reforçando, ainda mais, os seu confronto com a dura realidade do envelhecimento. Envolvido neste clima de desencanto consigo mesmo e o desgosto pela vida, ele define cruelmente a velhice como sendo um massacre.

Lembrei-me, então, dentre tantos outros, da escritora Dóris Leasings, que acabara de receber o prêmio Nobel de Literatura de 2007, aos 84 anos; de Picasso, que desenvolveu trabalhos até os 90 anos; de Goethe, que concluiu o Fausto, aos 83; de Michelangelo, que projetou a cúpula da basílica de São Pedro, aos 90 e Oscar Niemayer que, aos 100 anos, continuava produzindo os seus trabalhos até no exterior.

A leitura do “Homem Comum”, obriga-nos a refletir essa inevitável etapa da vida humana.

Quem sabe fosse oportuno, antes de nos habituarmos ao silencioso ritmo da solidão, criar novos desafios como estratégias de sobrevivência? Se a vida é sempre uma obra aberta, por que deixar nos escaninhos do esquecimento páginas em branco? Indagado aos 78 nos, sobre o envelhecimento, Paulo Autran respondeu: “A velhice é como a melancolia do entardecer, tem um quê de tristeza, porém traz consigo a sensação do dever cumprido”.

Nessa direção, Rubem Alves compara a velhice como a hora do crepúsculo, da oração do “Angelus ...., momento em que os sentidos ficam mais atentos, voltados, tão somente, para a contemplação.”

Penso que caberá, aos que conseguirem chegar à idade crepuscular, desenvolver sabedoria e serenidade que os capacitem a enxergar, num horizonte sem horizonte, a tristeza e ou a beleza do seu entardecer pessoal.
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