23/05/2019 às 07h47min - Atualizada em 23/05/2019 às 07h47min

"Papai" Tite

TIAGO BESSA
Imagine um pai de dois filhos tendo que lidar, diariamente, com as traquinagens que as crianças geralmente (e normalmente) cometem em todos os lugares. Ele recebe uma ligação da diretora da escola em que os filhos frequentam, que diz que o mais velho cometera uma dessas traquinagens. Na hora do recreio ele cuspiu no rosto de um colega, depois de uma briguinha dessas que as crianças arrumam. Chegando em casa, ávido por corrigir seu filho, o pai o proíbe de jogar os próximos dois jogos do time da escolinha de futebol, o que acaba coincidindo com um pequeno machucado obtido em um outro jogo. Punição dada, criança corrigida, segue a vida!

Alguns meses depois este mesmo pai recebe outra ligação da diretora, agora com um tom de voz um pouco mais carregado, convocando-o para nova reunião. Desta vez o filho mais novo cometera uma traquinagem: desferiu um soco no rosto de outra criança, em resposta a algum insulto ou provocação. Este filho também joga naquela escolinha de futebol do filho mais velho e, naturalmente, seria merecedor de uma punição. Porém, o pai resolve permitir que o filho mais novo jogue normalmente pelo time da escolinha, aplicando-lhe somente o famoso "sermão de pai"! Não lhe parece, caro leitor, um exemplo do famoso ditado "dois pesos, duas medidas"? O que pensaria o filho mais velho ao perceber que seu irmão, tendo cometido ato mais grave que ele, não recebeu punição a contento?

Poderia ser uma pequena história de conteúdo moral, mas é a releitura do que aconteceu na seleção brasileira de futebol masculino nos últimos meses. Em setembro de 2018, o jogador Douglas Costa ficou de fora de dois amistosos em punição a uma cusparada desferida no rosto de um adversário no Campeonato Italiano. Ele saiu contundido desse jogo, mas o Tite afirmou que o ato de indisciplina (de falta de educação mesmo) pesou para sua não convocação. Há poucas semanas, Neymar agrediu, com um soco, um torcedor, enquanto subia para receber a premiação de vice-campeão. No entanto, fora convocado para a Copa América a ser disputada no próximo mês.

O papo de que o Neymar "é só um jovem deslumbrado com a fama e a riqueza", "apenas um garoto querendo viver a vida que ele leva com merecimento" e todas essas conversas de quem não quer enxergar a falhas de seus ídolos, não cola mais! Ele é um homem de 27 anos, observado e admirado por muitas crianças que, ao perceberem este comportamento, recebem um péssimo exemplo. Sua convocação é a prova da fraqueza de um técnico que, até então, sempre se apresentou como baluarte da lisura e dos bons costumes e que sucumbiu ao "poder" de um jovem que acha que tudo pode fazer. Não é só nosso futebol que está morrendo!


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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