07/05/2019 às 08h18min - Atualizada em 07/05/2019 às 08h18min

Uma história incrível (Parte I)

ANA MARIA COELHO CARVALHO
Escrevi sobre o casamento de uma filha e agora escreverei sobre o casamento da outra. Mas é difícil acreditar no relato que se segue, embora tudo o que escrevo seja a mais pura expressão da verdade.

Tenho uma filha que sempre viaja para a Índia, possui uma loja de roupas indianas, faz meditação e ioga, tem uma profunda fé em Deus, cursou Direito e atualmente mora na praia de Algodões- BA, com o marido e três filhos. Na época do casamento, ela foi protagonista de uma história daquelas que só acontecem nos filmes tipo Jane e Tarzan. Aconteceu que, depois de ter chegado aos mais de trinta anos, resolveu que era hora de se casar e ter filhos, antes que fosse tarde demais. Mas a percepção dela de homem ideal é completamente diferente da percepção de uma mulher normal, embora ela fale três línguas e conheça boa parte do mundo. Queria um homem simples, voltado para a natureza, sem emprego em tempo integral e que ajudasse a cuidar dos filhos. Encontrou um no meio da selva, numa comunidade de quilombolas na Península de Maraú, BA. Foi paixão à primeira vista.

Para quem não sabe (eu não sabia muito sobre o assunto, andei pesquisando), quilombolas são comunidades negras de descendentes de escravos que viviam nos quilombos. Na Bahia existem mais de trezentas destas comunidades, algumas seculares, com cultura e histórias próprias. Geralmente sobrevivem da agricultura de subsistência e do cultivo e venda de fibras, como piaçava e do óleo de dendê. A maioria não sabe ler, não tem certidão de nascimento, CPF, carteira de identidade, título de eleitor. Como em Ambuba, a comunidade quilombola do meu genro. Lá, a família dele vive em harmonia, uma das coisas que encantou a minha filha. O pai é branco, a mãe negra, os filhos morenos ou negros. São dez irmãos que cultivam a terra e repartem o que colhem. Vivem em cabanas de madeira ou em casas simples, buscam água no rio, pescam peixe e camarão pitu, caçam tatu, fazem um chocolate delicioso com o cacau que cultivam. Não existe energia elétrica e cozinham em fogão de lenha (já estive lá três vezes). Vivem praticamente sem dinheiro, o pouco que ganham é com a venda de borracha extraída da plantação de seringa. Usam para comprar óleo, carne seca, sal, café, açúcar, farinha, feijão. Ele, o genro, antes de se casar, nunca tinha assistido a um filme, bebido uma cerveja, visitado uma cidade grande, nada. Ela, a filha, então o levou para conhecer um shopping em Itabuna. Ele ficou impressionado com tanta gente e com tanta loja. E eu, na época, como mãe e sogra, fiquei abobalhada com tudo isso.  

O casamento foi na praia de Algodões, perto da casa de minha filha, em uma capelinha na beira da praia, onde só cabiam quinze pessoas. Foi construída por um milionário de São Paulo, ao lado de sua mansão na praia. É uma réplica de uma capela da Itália. Depois do casamento, houve um jantar em um restaurante simples na beira da praia, com vários tipos de peixes, pois era época do Festival da Tainha. O local era paradisíaco, a praia linda, cheia de coqueiros, muito limpa e com mar morno (o restaurante hoje é uma badalada casa de festas, o Tikal, onde famosos de todo o Brasil passam o réveillon).

Meu marido e eu conhecemos o noivo e sua grande família justo no dia do casamento. E no dia seguinte, fizemos uma visita à comunidade quilombola.  Como é muito isolada, carro não chega até lá. É preciso andar a pé por uma longa trilha, atravessar um mangue com água pelos joelhos e depois entrar em uma canoinha para chegar ao outro lado do rio. Para terminar, era necessário galgar um morro com inclinação de 45°, sob o sol escaldante da Bahia. Meu marido, o Zé, não queria ir, mas foi. Nos próximos textos contarei como foi o casamento e a aventura na selva.
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