28/04/2019 às 08h00min - Atualizada em 28/04/2019 às 08h00min

Você sabe perdoar?

KELLY BASTOS (DUDI)
Bom dia, gente!

Mesmo que a Páscoa tenha sido comemorada no último domingo, quero trazer esse tema para vocês, para reflexão e, até mesmo porque, sendo libertação o verdadeiro sentido da Páscoa, então vale para todos os dias, concordam? Então, vamos lá.

Costuma-se dizer que a Páscoa é tempo de perdão, porque, sem ele, não seria possível nem para os judeus se libertarem da escravidão no Egito e nem para os cristãos se surpreenderem com a ressurreição de Cristo após a crucificação. Afinal, como obter uma graça divina, sem antes ter se desprendido de todo ressentimento e amargor? Muitos de nós acreditam que basta dizer: eu te perdoo ou já esqueci para que as coisas fiquem bem. Porém, doenças, acidentes e uma vida cheia de infortúnios revelam que este perdão não aconteceu, posto que tudo o que jogamos na vida, seja na forma de pensamentos ou emoções, retorna para nós no mesmo grau. Ou seja, se ainda existe rancor dentro de nós, ele não irá desaparecer no ar só porque não estamos prestando atenção.

O perdão é uma decisão inteligente, que beneficia principalmente a quem o exerce", afirma o psicanalista Fernando Vieira Filho, autor do livro "Cure suas mágoas e seja feliz".

O que nos faz ter dificuldade em realmente perdoar é o nosso ego, também conhecido como amor-próprio. Quando nos sentimos feridos, lesados ou ofendidos, nosso coração se enche de mágoa e ficamos revivendo aquele momento negativo, várias e várias vezes. Se é muito dolorido, procuramos esquecer. Porém, basta que algo semelhante nos aconteça para que todas aquelas emoções negativas retornem com força total. É nessa hora que percebemos que as coisas não estão tão bem quanto imaginávamos.

O problema disso tudo é que guardar um ressentimento apenas envenena nosso corpo e nos mantêm prisioneiros de uma ilusão, na qual nós somos vítimas de um terrível algoz. Isso acontece porque não compreendemos que ninguém é vítima de ninguém e que, no fundo, não há como alguém nos ferir ou atingir, ao menos quando o permitimos por causa de nossa insegurança. Portanto, querer se vingar ou ainda ficar mantendo um acontecimento na memória apenas para usá-lo contra outra pessoa, nunca irá de fato resolver o problema.

Segundo os psicólogos, perdoar é uma das coisas mais difíceis que existem nesse mundo. A gente faz cem abdominais sequenciais, corre a São Silvestre, enfrenta a crise política, lambe o cotovelo, mas, perdoar é uma tarefa que muita gente simplesmente não consegue cumprir.

Não que a gente viva com o coração cheio de rancor. De maneira alguma. Tem coisa que a gente tem que deixar ir pra abrir espaço pra coisa nova entrar. Desapegar, é o que o povo diz. E isso a gente faz maravilhosamente bem. Aliás, a gente é a geração que melhor fez isso na história da humanidade. Perdoar é que é o problema. Em primeiro lugar, porque a gente não sabe o que é perdoar. Vira e mexe, ouço gente – geralmente orgulhosa – dizendo: perdoar eu perdoo, esquecer é outra coisa. Ledo engano. É impossível perdoar se a gente não esquecer. É óbvio que esquecer, nesse caso, não significa apagar do pensamento, deletar da memória, assumir um Alzheimer seletivo, precoce e temporário. Não é nada disso. O perdão exige que a gente se esqueça não do fato – mas de como ele nos fez sentir. Dizer que perdoou uma eventual traição, mas se sentir traída sempre que o cara dá as caras não é perdoar. Se orgulhar por ter desculpado a amiga que não soube guardar segredo, mas não perder a oportunidade de comentar num churrasco em família o quanto ela foi sacana não é perdoar.

O que a gente faz é ressignificar as nossas dores – e a importância que elas assumem nas nossas vidas. Mas ainda assim, a gente tá longe de perdoar. Porque perdoar exige renúncia a muita coisa – especialmente ao sabor (sempre delicioso) de se estar coberto de razão. Não que quem pede perdão sempre esteja errado. Mas, para estar na posição de precisar de perdão, essa pessoa certamente descumpriu um trato ou agiu unilateralmente. Aí a gente se sente maravilhoso, justo, honesto, bondoso, lindo, gostoso e no direito de gritar isso aos quatro ventos enquanto aponta o dedo para o erro do outro.

Agora, a partir do momento em que se perdoa, já era. Porque perdoar pressupõe voltar a um patamar de igualdade. Recomeçar. Assumir um estado natural de confiança mútua, até que a promessa seja quebrada novamente. Já não importa quem errou, o que passou, passou. E é isso que é perdoar: tratar o passado como passado, viver o presente e ter perspectivas de construir um futuro bom com quem foi perdoado. Pode até parecer oficina de como fazer origami modular com o seu papel de trouxa, mas isso é que é perdoar. O resto é qualquer outra coisa.
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