07/04/2019 às 08h30min - Atualizada em 07/04/2019 às 08h30min

Enviado de Fortaleza

WILLIAN H STUTZ
Para tudo. A tela se abre em negrume. Aos poucos vão aparecendo letras em formato “Courier New”. Silêncio total. Lê-se: “Esta é uma história baseada em fatos reais”. Um violoncelo entoa uma canção, as letras vão lentamente sumindo e a imagem na tela vai se transformando em caudaloso rio. As árvores às margens deixam seus galhos mais baixos rasparem a correnteza, o brilho do sol explode em luzes e reflexos. Lá, bem do fundo, girando como movimento de imenso redemoinho, sobe um letreiro. Aparece flutuando ao embalo do rio a palavra PESCARIA.

Está nervoso? Vá pescar! Quem nunca ouviu essa expressão na vida? Pois assim foi com um amigo. Nervoso de tantos afazeres, correria sem fim, trânsito caótico. Cidade e barulho. Em casa, como em todas as casas, mais problemas. Cano que não para de gotejar, o gato que subiu no telhado e não consegue descer, a campainha que toca ao mesmo tempo em que o celular, sempre. Televisão alta e desenho animado: Umizoomi, Teletubbies, Galinha Pintadinha!!!!! Enlouquecedor.

Assim, quando se via literalmente à beira da histeria, de um ataque cardíaco, do nada, em um bar a tomar cerveja na tentativa de relaxar, mesmo com a música alta e o falar sem fim e sem educação da maioria das pessoas, veio de um amigo de trabalho o convite:

 − Cara, você não está bem, precisa relaxar. Olhou no fundo dos olhos do sujeito, pensou em esganar o cara ali mesmo. Como se ele não soubesse!

Seguinte. Estamos formando um grupo para passar uma semana pescando no Rio Corumbá. Vamos com a gente? Não imagina o bem que vai te fazer.

Espantou o desejo de ataque, a imagem do amigo ficando vermelho, vermelho, roxo, roxo. Suas mãos em torno do pescoço imaginário foram afrouxando. Respirou fundo: − Pescar? Como assim pescar?

É isso mesmo. Um sossego, só mata e o rio. Muito peixe, muita cerveja, ficar completamente tranquilo, sem hora pra nada! Sabe, é como recarregar baterias. Vamos. Tenho certeza de que vai me agradecer depois. Não precisa levar nem tralha. Tenho para nós dois.

Quando acordou da dormência do susto já havia pedido semana de folga no trabalho, pois a tinha por direito. Havia também brigado com a patroa, que não conseguia entender como alguém podia deixar o conforto de casa para arranchar em beira de rio.

Abriu os olhos com o barulho da latinha de cerveja em delicioso estampido. Já estavam pra lá da Água Vermelha. Trevo de Aparecida do Taboado avistado, Selvina e toca para a BR-158 Mato Grosso adentro. Em Três Lagoas já era a 262. Em menos de dez cervejas já estavam em Água Clara. Um esclarecimento: nosso amigo não estava dirigindo. Ribas do Rio Preto, Campo Grande, enfim Miranda e, mais um tantão, Corumbá. Um pouco mais adiante Puerto Soarez, departamento de Santa Cruz, Bolívia. Foram quase 1.300 quilômetros, os mais tranquilos de sua vida. Cansaço e o consumo de combustível foram satisfatórios. Trinta e cinco latinhas e um porre dos melhores.

Chegaram ao rancho na boca da noite. Foi a conta de descer a carga, comer qualquer coisa e apagar de sono e bebida.

A brisa fresca da manhã embalava um sono dos justos quando no grito foi acordado: − Bora pescar moçada, seis da manhã e tem peixe esperando a gente!

Tonto de sono, mas ansioso pela experiência de sua primeira pescaria, pulou da cama. Café no bucho, canoa na água e, claro, com sua inseparável caixinha de isopor com cervejas, tocam a subir o rio.

Por orientação do pirangueiro acham lugar de fartura. Ali apoitam.

Lançam linhas, abrem cervejas e tocam a esperar. A manhã já ia alta, o calor e os pernilongos começam a dar as caras. Beliscada que fosse, nem umazinha, nem de cascudo ou lambari.

Calor e mais calor e nada. Resolvem trocar de pesqueiro, sobem mais o rio. Ali no deslocar deu vontade louca no amigo de fazer xixi. O deslizar da canoa e o bater de proa só fazem a coisa piorar. Pede socorro. Vão rumando para a margem.

– E vocês, por favor, não fiquem me olhando. Sofro de bexiga tímida. Dou conta não de fazer xixi com gente olhado. Em pé no barco olhou firme para o barranco. Travou, pois se sentiu observado. E não é que do remanso um monte de pares de olhos estavam fixos nele?
– Que diabo é aquilo? Perguntou apreensivo.
– Uai, é jacaré sô! Risou o pirangueiro.
– Jacaré? Vamos sair daqui agora! – Medo de jacaré? Você tem é que pensar nas onças. Estas sim são perigo certo.

Vaza moço! Vamos para o meio do rio! Que bexiga tímida que nada! Que parurese que nada! Curado na raça, aprendeu a fazer xixi até com canoa andando. Certo que volta e meia fazia contra o vento e se molhava todo. Fazer o quê, senão rir? Era pescaria.
Passaram o dia todo do mesmo jeito. Nenhum peixinho para contar história.

Dizem que é assim mesmo. Dias antes, milhares de peixes tinham subido o rio, deixando o lugar vazio deles. Iria demorar um pouco para normalizar. Ainda faltavam seis dias de pescaria.

(Continua)
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