09/10/2018 às 08h00min - Atualizada em 09/10/2018 às 08h01min

Uma triste partida

SEBASTIÃO ELIAS DA SILVEIRA | ENFERMEIRO
Na semana passada, lamentamos o inesperado falecimento de uma colega, servidora do HC-UFU que trabalhava pela Faepu. Entristecido com a sua perda decidi homenageá-la, ainda que tardiamente, com uma pequena reflexão sobre a circunstância de sua morte, que nos alerta para a necessidade de cobrarmos melhores relações de trabalho e eficiência do sistema de urgência e emergência no município.

Trata-se de uma pessoa simples, enérgica, altiva e sempre elegante, mas que tinha um hábito que compromete a saúde: o tabagismo, que certamente foi a principal causa do mal súbito que a levou. Mas a essa condição, outras se somaram. Na véspera de sua morte, visivelmente irritada, desabafou com colegas que a instituição não lhe pagara horas extras realizadas e, ao mesmo tempo, lhe descontou do salário valores referentes ao intervalo de almoço desses dias.

Na tentativa de resolver a situação, teria procurado o setor responsável pelos pagamentos. Não adiantou e não deu tempo. O valor aparentemente pequeno, era importante para quem tinha salário baixo e vivia a angústia das mudanças em curso na instituição. Esta é uma evidência de que avançamos para relações de trabalho deletérias, agravadas pela desregulamentação da CLT e de que estamos muito distantes dos objetivos de humanização para o trabalho decente.

Ela morreu na madrugada seguinte. Antes, foi socorrida por uma pessoa da família que fez contatos no HC e recebeu a orientação que não poderia levá-la. Então, com a ajuda de vizinhos, acionou os Bombeiros que, ao resgatá-la, reconheceram a gravidade e reforçaram que “existe um protocolo segundo o qual os pacientes devem primeiro dar entrada na UAI”. Assim, sem ser recebida no HC,  seu óbito foi constatado na UAI Martins. Era a véspera do “dia da secretária” - uma triste ironia, pois exerceu este ofício por décadas no hospital recebendo pacientes.

Estes casos com servidores têm sido recorrentes. Há pouco tempo, outro trabalhador do hospital foi levado ao HC pela esposa, também servidora, e, após ser barrado na entrada do PS, faleceu. Muitas autoridades consideram que desejar atendimento prioritário para trabalhadores do hospital é defender privilégios. Mas, parece que pouco se incomodam com a falta de uma rede de urgência e emergência eficaz na cidade para atender toda a população, pois os trabalhadores do HC sofrem do que padece o público em geral. O episódio nos obriga a cobrar um Pronto Socorro público aberto 24horas; a implantação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que poderia tê-la atendido no local; e a implantação de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), que, diferentemente das limitações das UAIs, deve manter leitos de estabilização com estrutura e profissionais.

Enquanto isso não acontece, o principal Pronto Socorro da região que funciona no HC-UFU, com a pretensão de receber apenas demanda referenciada, mantém uma grande cancela e faz triagens administrativas. Quanto às regulações, embora técnicas, são vulneráveis e permeáveis a ingerências de personalidades sanitárias, políticas, econômicas, religiosas e de outras naturezas que, se valendo de suas relações, impõem demandas que, sendo urgências ou não, acabam validadas e atendidas. Esta mediação por contatos informais leva ao congestionando do hospital e, ainda que compreensíveis, são ilegais.

Talvez o caso dessa servidora não tivesse jeito mesmo, “foi um mal súbito” - como no passado, em casa e por falta de acesso, as pessoas morriam “de repente”. Mas nunca saberemos. O que sabemos é que a assistência à saúde “é um direito de todos” e se os trabalhadores do HC, mesmo em situação de emergência, a ele não devem ter acesso, também não podem ser discriminados pela mesma razão. Esta colega representava muito bem o perfil da nossa população porque era pobre, mulher e negra, que não sendo rica ou influente na cidade, teve o mesmo destino reservado para a maioria das pessoas comuns.
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