08/02/2019 às 11h12min - Atualizada em 08/02/2019 às 11h12min

Ainda sobre a felicidade

ALEXANDRE HENRY | JUIZ FEDERAL E ESCRITOR
Continuo em minha saga para entender a felicidade. Continuo, também, refletindo sobre o que Yuval Harari escreveu sobre ela em seu livro “Sapiens: uma breve história da humanidade”, que já citei aqui em outras ocasiões. O autor menciona em uma passagem da obra que há diversas “teorias” sobre a felicidade. Uma delas seria baseada na quantidade de sensações prazerosas que temos, o que nos faria depender da bioquímica corporal e de substâncias que podem provocar tais sensações. Outra teoria liga a felicidade a termos um propósito na vida, o que explica tanta gente sofrendo horrores, mas se mostrando feliz, por seguir uma religião no propósito de ter algo melhor após a morte.

Há uma terceira teoria que ele cita e ela se aproxima das ideias budistas: a felicidade seria algo interno e, para atingi-la, precisamos parar de sofrer, sendo que o sofrimento tem como causa mais comum o desejo de termos algo (material ou imaterial). Ok, não é exatamente com essas palavras que o autor descreve suas ideias, mas o resumo da ópera é esse aí. Se você vive desejando o que não tem, você vive em sofrimento. Se você se livra desse querer constante, você se livra do sofrimento e, por consequência, consegue ser mais feliz.

Particularmente, acho que essas três teorias se complementam e que ainda há outros fatores envolvidos quando o assunto é uma vida feliz. Mas, quero me concentrar nessa terceira ideia, a do querer-sofrer, pois ela me parece extremamente pertinente e demanda uma mudança comportamental de quem pretende se sentir mais feliz. Mas, vamos partir de uma verdade inegável para caminharmos com os pés no chão: é muito difícil viver em uma sociedade capitalista sem desejar algo da hora em que se acorda até a hora em que se deita. Aliás, até sonhando a gente deseja alguma coisa. Não me refiro apenas a bens materiais, embora eles componham a parte mais relevante desse onipresente querer, mas a qualquer coisa que não temos. Se há algo que o capitalismo nos condiciona é a sempre querer, pois só quando desejamos é que damos impulso a atos de consumo. De tanto desejar consumir bens e serviços postos à venda, acabamos vivendo em desejo também por outras coisas que não estão lá muito ligadas ao vil metal, como o amor do colega de trabalho, a virilidade do instrutor da academia e por aí vai. Em resumo, o capitalismo adestra o ser humano para um constante desejar.

Se assim é, fica difícil ser feliz por meio do “não querer o que eu não tenho”, fazendo com que boa parte da humanidade fique condenada a um eterno estado de tristeza e insatisfação. De fato, é isso mesmo o que acontece e é por isso que, acredito eu, tanta gente se mostre infeliz nos dias de hoje quando se faz uma comparação com pessoas de outras épocas, mesmo agora se tendo muito mais alimentos, remédios, roupas e outros bens que tanto facilitam a vida.
É aqui que entra a mudança de comportamento necessária. Como desejar menos se tudo é consumo, tudo é querer algo a mais? Deixar de ver propagandas de TV ou na internet não vai adiantar muita coisa, pois você vai querer ter o telefone novo que seu colega acabou de comprar, mesmo que você não tenha visto o comercial sobre ele. A única solução que me vem à cabeça é reconhecer tudo de bom que já se tem. Existe aquele mantra da Bíblia que diz “de tudo, dai graças”, não existe? No caso, a Bíblia fala para agradecer a Deus. Para quem é cristão, esse pode ser um caminho, mas não há necessidade de um ente superior a ser agradecido para que a gente reconheça as coisas boas que tem. Também não precisa ficar trabalhando a mente com base em comparações com quem tem menos que você.

Vamos resumir? O caminho é chegar ao final do dia, repensar o que aconteceu desde a manhã, olhar ao redor e se sentir feliz pelo que você viveu enquanto esteve acordado e pelo que você já tem. Que bom que eu fui ao clube hoje! Que bom que eu consegui finalizar meu trabalho! Nossa, é ótimo poder deitar na cama da gente e descansar, não é? Mas, aquele macarrão da hora do almoço hoje, que delícia!

Parece bobagem, parece idiotice. Não é. Quanto mais você reconhece o que de bom você já tem, menos necessidade você vai sentir em relação ao que ainda não tem. Tudo o que se deseja é desejado para preencher algum tipo de vazio. Olhar para si e ao seu redor, refletindo sobre o que de bom já existe, diminui um pouco esse vazio. Consequentemente, diminui o querer, que diminui o sofrimento, que aumenta a felicidade. Faça esse exercício por algum tempo e você verá que sua vida parecerá bem melhor.
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