22/01/2019 às 08h45min - Atualizada em 22/01/2019 às 08h45min

O tênis

ANA MARIA COELHO CARVALHO
 Na poesia "Desejos", de Carlos Drummond de Andrade, ele deseja às pessoas coisas simples, singelas e gostosas, que fazem parte do cotidiano e que muitas vezes a gente nem percebe. Entre outros desejos, escreveu: "desejo a vocês fruto do mato, cheiro de jardim, namoro no portão, filme antigo na TV, ver a banda passar, noite de lua cheia, sarar de resfriado, tomar banho de cachoeira, queijo com goiabada, bater palmas de alegria, calçar um velho chinelo, sentar numa velha poltrona, ouvir a chuva no telhado, bolero de Ravel..."

Tenho certeza de que o Zé, meu marido, se lesse essa poesia, gostaria mesmo era de sentar na velha poltrona e, principalmente, de calçar um velho chinelo. Ou uma botina velha ou um tênis arregaçado. O problema é que o pé dele é gordinho, alto e quadradinho na frente (bico fino, nem pensar), por isso é árduo encontrar algum calçado que fique confortável. Quando encontra, usa o mesmo sapato por anos, até acabar. Certa vez, quando ainda jogava futebol duas vezes por semana, descobriu na hora do jogo que o tênis preto de lona tinha rasgado todo na lateral. Jamais deixaria de jogar por causa de um detalhe desses. Ressuscitou um tênis branco que já tinha encostado: calçou o pé direito com o tênis preto que estava bom, e o pé esquerdo, com o tênis branco, acreditem ou não. A turma do futebol, no começo, achou engraçado. Mas ele continuou em outras partidas com um pé branco e outro preto e eles se revoltaram. O Zé estava confundindo o time, pois na correria não sabiam se ele era um ou dois jogadores. Fizeram uma "vaquinha" e deram um tênis novo de presente para ele.

E agora, no Natal, aconteceu um fato inédito. Quando tudo se acalmou depois da ceia, do Papai Noel, do amigo da onça e das preces para o Menino Jesus, fui guardar alguns presentes que o Zé ganhou (o aniversário dele é nas vésperas do Natal). Retirei algumas roupas e objetos do armário para encaixar os presentes. Absorta na tarefa, deparei-me com uma caixa de sapato no chão, perto dos outros presentes do Natal. Curiosa, abri e encontrei um tênis preto, de cano alto, de material emborrachado sintético com costuras brancas em ziguezague, solado de borracha, com design bonito, novinho. Surpresa, perguntei ao Zé quem tinha dado para ele. Meio sem jeito e sem graça, respondeu que não sabia, não se lembrava. Argumentei que era muito descaso ganhar um presente bom como aquele e nem saber quem deu. Entusiasmado, ele calçou para ver se servia e ficou encantado: era macio, confortável, não machucava, dava o apoio necessário para a caminhada, daria até para correr e saltar. Andava pra lá e pra cá no quarto, impressionado como alguém adivinhou exatamente como deveria ser um tênis para ele, que tinha um pé tão difícil. Resolvemos tirar uma foto e colocar no grupo de WhatsApp da família, para descobrir quem foi e agradecer. Ninguém se manifestou, apenas um filho perguntou: "será que era para ele mesmo?" Quando li isso, lembrei-me de tudo: foi o Zé quem comprou o tênis! Há uns seis meses, eu tinha conseguido arrastá-lo a uma loja de calçados para comprar uma sandália. Ele gostou desse tênis e insistiu em levá-lo. Eu disse para não levar, que ele não usaria até a sandália acabar. Ele insistiu, com cinismo: "Posso?" Daí levou, guardou no armário e esqueceu. Quando desocupei o armário, o tênis veio junto e se misturou com os outros presentes. Resumindo, foi ele quem deu o presente para si mesmo. Ele não se lembrava, nem eu.
 
Assim, mesmo o Drummond desejando tantas coisas boas para a gente, só posso terminar com um texto divertido que li na internet: "não sei quem inventou essa bagaça de melhor idade...Melhor idade uma pinóia! Acho o papel e perco a caneta. Quando acho a caneta já não sei mais onde coloquei o papel. Quando consigo unir os dois, cadê ‘ozóculos’? E quando acho os três já não me lembro mais o que escrever... Eu, heim..Ô rái!!!"
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