10/01/2019 às 08h49min - Atualizada em 10/01/2019 às 08h49min

Retratos da infância

ANA MARIA COELHO CARVALHO
Em Uberlândia, há 40 anos, a região nas proximidades da atual Avenida Rondon Pacheco, no bairro Lídice, era toda coberta de mato, com inúmeros lotes vagos. No local da Rondon passava um córrego, que muitas vezes era usado como despejo de esgoto. Havia muita área verde, vacas e cavalos soltos. Na época, morávamos na Avenida Professor Mário Porto, dois quarteirões acima do córrego.

Neste bairro, meus filhos foram criados brincando na rua. Especialmente um deles adorava a vida livre, leve e solta. Sempre estava desaparecido na hora de ir para a escola e eu saia procurando-o pelas vizinhanças. Aos cinco anos, troncudo, pernas grossas, bochechas coradas, roupa suja, encontrei-o suado subindo o morro com uma varinha de anzol em uma das mãos e na outra, uma latinha com minhocas, sorrindo feliz. Estava atrasado para a escola e perguntei-lhe, zangada, onde ele estava. Respondeu com sinceridade: "Pescando no bosteiro!"

Em outra ocasião, aos quatro anos, chegou em casa puxando um cavalo branco e magro em uma corda. Explicou que era o cavalo que seu padrinho, que morava no Carmo, havia enviado para ele. Contou que pediu a um senhor para laçar o cavalo no lote vago, pois não tinha conseguido. Espantada, soltei o pobre animal e ele fez um escândalo. O problema é que realmente o padrinho tinha prometido um cavalo para ele, nunca deu e criança não esquece.

Na frente da escolinha onde ele começou a estudar aos cinco anos, havia um enorme poste de concreto da rede elétrica. Até hoje me pergunto porque aquele poste tinha que estar logo ali. Dia sim e outro também, ele se agarrava ao poste para não entrar na escola. Era uma luta árdua arrancá-lo dali (mãe sofre). Pensei que ele não iria virar gente. Mas Deus é misericordioso, e quando ele fez vestibular para medicina, na UFU, aos 17 anos, foi aprovado em primeiro lugar.

Pensando em tudo isso, enviei-lhe um e-mail, depois que ele já era pai de dois filhos, perguntando-lhe sobre as lembranças que tinha da sua infância. Respondeu-me com estas palavras: "ganhei meu rifle Super Tiro no Natal, tive meu Falcon olhos de águia, dezenas de playmobil, comprei minha primeira espingardinha de chumbinho com o dinheiro que economizei do lanche, pesquei no bosteiro, nadei nele, peguei giardia, bicho-de-pé, oxiuríase, berne na testa, joguei futebol na rua, cortei fundo o pé, levei ponto, finquei prego enferrujado no dedo, chupei manga e bebi leite (e não morri até hoje), brinquei com fogo (e não queimei o dedo), quase morri afogado na lagoa de Formiga, me perdi na praia com o meu baldinho catando conchinhas, caí várias vezes da bicicleta, matei passarinho com estilingue, brinquei de guerra de argila, de mamona e de sal grosso, desci morro com carrinho de rolimã que eu fiz. Mas o principal é que tive bom exemplo dentro de casa e que fui amado".

E assim, com amor, a vida continua e tudo se repete. Quando os filhos dele eram pequenos, também faziam uma travessura atrás da outra. Um dia, a mãe disse a um que, na época, estava com quatro anos: “Ah, Vítor, espero que um dia você ainda vire gente!"

Ele dormiu e quando abriu os olhinhos no dia seguinte, perguntou: "Mamãe, eu já virei pessoa?"
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