07/01/2019 às 08h38min - Atualizada em 07/01/2019 às 08h38min

A ideologia na educação

ALEXANDRE HENRY | JUIZ FEDERAL E ESCRITOR
Um dos grandes objetivos do governo eleito é expurgar o marxismo da educação brasileira. No último dia do ano, Bolsonaro publicou no Twitter: “Uma das metas para tirarmos o Brasil das piores posições nos rankings de educação do mundo é combater o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino. Junto com o Ministro de Educação e outros envolvidos vamos evoluir em formar cidadãos e não mais militantes políticos”.

Que a nossa educação realmente não é de primeiro mundo, isso ninguém nega. Quanto às ideias de Marx, eu também sempre achei que havia um certo exagero, ao menos nas universidades, em relação ao papel delas como salvadoras da humanidade. Essa coisa de “menos Marx” é algo que me acompanha há tempos. Com tanto pensador importante nos últimos séculos, por que essa fixação absolutista por apenas um deles? Ao contrário de Bolsonaro, porém, eu não vejo o autor de “O capital” como demônio e nem acho que suas ideias devem ser varridas do mapa. Já escrevi aqui que há, sim, muita coisa interessante e que tem que ser levada em consideração nos escritos de Marx, nem que seja como forma de evitar que o capitalismo morra pelas suas próprias contradições, como tanto se fala no universo pensante do socialismo. Só que – aqui já me aproximo do novo presidente – vejo uma adoração exagerada em relação a esse autor.

A questão é que esse não é nosso problema maior na educação. É só você se lembrar dos bancos da escola. Quem é que eventualmente tinha uma pegada mais marxista nas aulas? Um ou outro professor da área de humanas, geralmente aquele ligado ao ensino de História ou de Geografia. Não me lembro de pregação socialista por parte dos meus professores de matemática, física, química etc. Nas universidades, embora as ideias do filósofo prussiano sejam mais fortes, elas não encontram nos cursos de exatas e de biomédicas tanta força, restringindo-se mais às faculdades de Filosofia, Sociologia, História e outros cursos das áreas de humanas.

O ponto aonde quero chegar é bem simples: se o marxismo tem pouca força nas áreas que produzem conhecimento mais próximo ao motor da economia de um país, como as engenharias e a medicina, por que continuamos tão ruins no plano internacional quando o assunto é educação? Por que produzimos tão pouca ciência capaz de ultrapassar nossas fronteiras? Por que nossos cientistas não têm destaque frequente nas publicações americanas e europeias? Por que a indústria pouco aproveita do que as universidades produzem? Culpa do marxismo, definitivamente, não é.

Nosso problema é mais embaixo. A questão ideológica tem pouca relevância no contexto geral, ao menos quando estamos falando da educação como fonte de geração de cabeças pensantes, capazes de gerar riqueza para o país. Somos um dos piores países do mundo quando se fala em capacidade de raciocínio matemático dos alunos do ensino médio, sendo que a matemática, como já disse, é uma área pouco influenciada pelas ideias marxistas.

Não vou entrar aqui na discussão do que precisa ser feito para mudar a educação brasileira, pois daria um livro. Adianto apenas que, enquanto não houver uma efetiva valorização da escola e do professor, nenhuma caça ideológica às bruxas trará qualquer resultado. O professor entra na sala de aula da periferia já desmotivado, com um salário baixo e uma estrutura de trabalho horrível. Não tem material direito, não tem apoio da direção escolar, não tem acesso a programas de formação continuada, nada disso. À sua frente, salas cheias de alunos cheios de problemas, a maioria praticamente abandonada pelos pais no tocante ao acompanhamento da educação. Pais, aliás, que enchem a boca para falar mal da “doutrinação marxista”, mas que pouco se interessam pelo que de fato acontece na sala de aula, pouco se importam se seu filho xingou a professora ou se passou a aula inteira importunando os colegas ou mandando mensagens pelo celular.
A minha grande preocupação é desperdiçarmos energia – e é exatamente isso o que me parece estar em curso – com esse esforço infrutífero de expurgo do marxismo, enquanto o que interessa mesmo permanece no atraso de sempre. O novo governo tem uma chance de ouro para fazer muito pelo país, pois há mais de uma década não encontra tanto apoio da população para promover mudanças. Não pode, porém, escolher as mudanças que gastem muita energia com pouco ou nenhum retorno prático, como parece ser o caso da educação. Triste, muito triste. Enquanto isso, países que levam o tema a sério, como a China, vão se distanciando cada vez mais de nós.
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