04/01/2019 às 09h10min - Atualizada em 04/01/2019 às 09h10min

Empresas devem pensar soluções para questões sociais

CLAUDIA BUZZETTE CALAIS | DIRETORA DA FUNDAÇÃO BUNGE
O ser humano tem um potencial incrível para transformar, mas muitos ainda são céticos em relação a isso. Na minha atuação no terceiro setor, primeiro na formação de comunicadores populares (lideranças comunitárias, comunidades rurais, jovens e donas de casa) e, há 17 anos, à frente da Fundação Bunge, que coordena projetos educacionais e de desenvolvimento territorial em várias regiões do Brasil, tenho percebido que o maior desafio é conscientizar as pessoas e as empresas envolvidas sobre o valor do indivíduo como agente transformador.

A questão é que muito do que deveria ser considerado uma tarefa para a razão humana, como o espírito colaborativo e a solidariedade, tem perdido espaço para a cultura do individualismo. A falta de empatia, esse exercício de se colocar no lugar do outro, tem nos distanciado e diminuído a cooperação, seja no campo político, no mundo corporativo ou no nosso dia a dia enquanto cidadãos. Apesar disso, sempre acreditei que o relacionamento e a comunicação são caminhos certeiros para trazer a consciência de cidadania e reconhecer o outro como capital humano. Questões como estas nos ajudam a refletir sobre estratégias e modelos de negócios sociais.

Durante meu envolvimento com ações sociais, compreendi que a inquietação e a busca pelo novo são a base para qualquer compromisso social. Para mudar, precisamos assumir o protagonismo nas ações e nos responsabilizar por elas. Empresas, instituições e governos são feitos por pessoas e, principalmente, por suas decisões e ações. Por isso, em 2011, encorajei-me a aceitar o desafio de assumir a direção dos projetos da Fundação Bunge, hoje considerada uma das principais instituições sem fins lucrativos do Brasil.

O nosso primeiro desafio na área de projetos sociais foi buscar maior interação entre as ações sociais que a instituição desejava desenvolver e as atividades de negócios da empresa mantenedora. Foi preciso analisar os impactos da chegada dos novos empreendimentos à territórios onde havia demanda por infraestrutura e serviços e traçar ações que convertessem impactos em oportunidades para a população local e para o negócio. Precisávamos investir e desenvolver o conceito de valor compartilhado.

Criamos um programa que visa orientar o investimento social privado de forma articulada e conectada com as comunidades a partir de ações planejadas e baseadas em diagnósticos e da criação de um plano de gestão integrada, envolvendo a empresa, o município, sociedade civil e entidades. Com diversos setores envolvidos, desenvolvemos uma agenda comum de trabalho pautada pelo diálogo e pela atuação partilhada, utilizando expertises das diversas partes nas soluções dos desafios em comum e fazendo jus ao nome da iniciativa: Comunidade Integrada, um dos principais programas sociais da Fundação Bunge. Atualmente desenvolvido em sete municípios de três estados brasileiros, beneficiando direta ou indiretamente milhares de munícipes.

Desde então, o diagnóstico das demandas sociais e ações para estimular a participação popular em projetos sociais têm sido o nosso maior desafio, pois, para cada caso existe um caminho diferente a ser seguido.

As comunidades e as empresas fazem parte de um mesmo processo e é muito importante que o mundo corporativo entenda o seu papel na sociedade e a sua função de agente de transformação. Por outro lado, também é preciso que a comunidade se associe na busca do desenvolvimento econômico e bem-estar social. Costumo dizer que só é possível construir o futuro com atenção ao passado e ações responsáveis no presente. É preciso ter capacidade de leitura de cenários!
As empresas podem e devem pensar além de empregos e impostos e precisam propor soluções para questões sociais porque a busca destas soluções também passa pelo enfrentamento de seus problemas. O poder público, por sua vez, deve fazer parte deste processo e a sociedade exercer o seu papel de fiscalização.
Precisamos urgentemente assumir o nosso protagonismo e pararmos de nos esconder atrás de branding e cargos. Não existem empresas, diretores e CEOS. O que existem são pessoas que definirão por meio de seus atos e ações como serão as empresas, os diretores, os CEOs e a sociedade. A decisão está nas mãos de cada um.
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