24/12/2018 às 10h41min - Atualizada em 24/12/2018 às 10h41min

Livre mercado: será?

ALEXANDRE HENRY
A dois dias do Natal, vou dar uma sugestão de presente para você mesmo: o livro “Sapiens: uma breve história da humanidade”, escrito por Yuval Harari. Sobre o que fala a obra? Ora, sobre a história da humanidade, claro! De forma sintetizada, mostrando os principais pontos da evolução da nossa espécie.

Estou quase no final da leitura, depois de muita recomendação por parte de meu irmão mais velho, e estou gostando bastante do livro. Realmente, é um texto claro, acessível, mas nem por isso é um texto raso. Outro ponto que me chamou a atenção bastante é o fato do autor não ser partidário de uma corrente ideológica específica, não se percebendo no livro, ao menos no geral, uma defesa clara por valores de esquerda ou de direita. Em vários momentos, ele apresenta as teorias existentes sobre determinado assunto para que o próprio leitor tire suas conclusões. Em alguns casos, ele opina acerca da teoria mais factível.

Uma das partes da obra que mais me chamou a atenção foi aquela em que ele, que não se mostra contra o capitalismo, adverte para a crença exagerada no chamado “livre mercado”. Para os defensores ferrenhos dessa ideia, o melhor cenário é aquele em que os governos se abstêm de qualquer interferência na economia. O princípio é simples: quanto mais um empresário lucra, mais ele reinveste seu lucro, gerando mais empregos e promovendo, assim, o desenvolvimento geral. Porém, Harari adverte: a liberdade irrestrita do mercado não garante que os lucros serão conseguidos de uma maneira justa, muito menos que serão distribuídos de maneira igualmente justa.

Faz sentido. Ele cita o exemplo do tráfico de escravos da África para as Américas. Quem promoveu a escravidão? Em sua maior parte, não foram reis de países europeus, mas empresários que encontraram nesse mercado um jeito altamente lucrativo de ganhar dinheiro. Eles compravam navios, contratavam marinheiros e soldados, compravam escravos na África, traziam para países como o Brasil e os EUA, vendiam, compravam então produtos aqui produzidos (como açúcar e algodão), levavam para a Europa, lucravam com isso também, depois partiam novamente rumo à África. Harari recorda que o negócio era tocando por empresas com ações nas bolsas de Amsterdã, Londres e Paris, por exemplo. Iniciativa privada pura.

O capital, quando desfeito de qualquer amarra, não age para o bem comum da sociedade. O capital é movido pela busca do lucro, tão somente isso. O livre mercado, por sua vez, funciona bem apenas enquanto ele é livre de verdade, o que costuma acontecer apenas no começo de um determinado ramo de negócios. Aos poucos, a tendência é uma das empresas ganhar mais corpo, adquirir as demais, até que reste apenas um oligopólio, quando não um monopólio. Mas, sempre pode surgir um concorrente fazendo um produto melhor para tomar seu lugar, não? Não, quase nunca. Como a maioria dos produtos hoje depende de investimentos altos em pesquisa, aliado ao ganho de escala que uma grande empresa obtém, é muito fácil que essa empresa simplesmente esmague quem tente entrar no mercado. Aos poucos, tudo de bom que o livre mercado poderia trazer para a sociedade se evapora atrás da montanha de lucro do personagem dominante daquele mercado específico.

Eu falo isso, na esteira do que Harari escreveu, por que sou contra o capitalismo e o livre mercado? De maneira alguma. Como eu escrevi outro dia, quando falei sobre o comunismo, ainda acredito que o capitalismo seja o sistema “menos pior” que já criamos. Também acho que o livre mercado é o melhor dos caminhos. O que eu quero dizer é simplesmente que não se pode ser radical, não se pode abraçar a ideia de que governos são ruins e empresas são boas, que controle estatal é maligno e liberdade total é o paraíso. Hoje, época em que não há mais correntes de pensadores, mas apenas arquibancadas de torcedores atirando nos adversários pelas redes sociais, parece crescer cada vez mais a ideia de que o bom é um liberalismo extremado, sem qualquer controle estatal. Mas, essa liberdade, se levada ao extremo pregado por alguns, traz quase tanto mal para a sociedade do que as tentativas de implantação do comunismo.

Preguemos, pois, um estado mínimo, mas não omisso. Um estado que se afaste do papel de agente econômico e se concentre em um papel de mediador, sempre buscando os interesses da sociedade, por mais que, às vezes, isso doa no mercado. Enfim, um estado que promova o livre mercado, assegurando que esse mercado fique livre, inclusive, de abusos do poder econômico.


*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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