26/11/2018 às 08h58min - Atualizada em 26/11/2018 às 08h58min

Como manter a mulher submissa

ALEXANDRE HENRY
A minha dica de hoje é sobre como manter a mulher submissa. Não falo só da sua esposa, mas da grande parcela feminina da população brasileira. É bem simples: faça com que a maternidade atrapalhe ou mesmo destrua a capacidade da mulher estudar ou se desenvolver profissionalmente. Como? Continue colocando só no colo feminino a responsabilidade por cuidar dos filhos pequenos. O jeito mais fácil para isso é não oferecer creches e escolas em tempo integral.
Quem é mãe e não tem condições financeiras de bancar uma babá, nem conta com a ajuda preciosa de algum parente, sabe muito bem do que estou falando. O ser humano é o animal que mais e por mais tempo depende de seus genitores após o nascimento. Quem tem um pingo de responsabilidade sabe que, antes dos dez anos de idade, não há a menor chance de deixar uma criança sozinha em casa por longas horas. Antes dos três anos de idade, não dá para deixar sozinha nem por uma mísera hora. É olho em cima do pequeno ser humano o tempo todo.

Como uma mulher vai estudar se tem um filho pequeno? Como ela vai voltar para o trabalho? A menos que existam creches em tempo integral, que não entrem de férias, a mãe brasileira sem recursos financeiros e sem ajuda de parentes tem que dizer adeus aos estudos e ao trabalho. Aí, mantém-se a estrutura de dominação masculina, pois não ter dinheiro próprio significa depender de alguém e, em regra, quem coloca o dinheiro em casa é que dá as ordens. Perpetua-se não apenas um sistema patriarcal que é a regra na pobre América Latina, mas também um sistema de perpetuação da pobreza que contribui fortemente para a desigualdade social e impede avanços econômicos maiores.

Hoje, há poucas creches no Brasil quando se compara à demanda. O que acontece é que a maioria das mães pobres não tem onde deixar seus filhos. Durante a licença maternidade, até que dá para segurar as pontas. Mas, o que se vai fazer com um bebê de seis meses após o fim da licença? A mãe vai largar a escola e o trabalho e ficar em casa. “Ah, não pode ter filho, não tenha!” – muito macho privilegiado pensa nos dias de hoje. Nem comento uma fala assim, de tão desprezível que é. Com o tanto de impostos que se paga no Brasil, especialmente as classes mais pobres (lembre-se: a maioria dos impostos está embutida no preço dos produtos mais básicos), o mínimo que o estado pode fazer é oferecer creches em tempo integral para que, finda a licença maternidade, a mãe possa trabalhar despreocupada.

Aliás, a necessidade não é só de creches. É preciso universalizar o ensino público em tempo integral no país. De que adianta você oferecer creche até os três anos de idade e, com quatro, a mãe ter que colocar a criança em uma escola de meio período e que fica de férias três meses por ano? O que ela vai fazer no outro turno do dia? A regra deve ser acesso universal a creches e escolas de tempo integral, ao menos até o 9º ano do ensino fundamental. Só assim a maternidade deixará de afastar as mulheres dos estudos e do mercado de trabalho por longos anos. Outra providência importante é dividir a licença entre pai e mãe. Aumente-se o tempo para aposentadoria, mas que a mãe fique quatro meses com o filho e o pai outros quatro, obrigatoriamente. Isso ajudaria muito a mudar a mentalidade dos homens brasileiros.

Levar a mulher para o mercado de trabalho não é bom só para ela, mas também para o país. A conta é simples. A riqueza econômica de uma nação está ligada diretamente ao que essa nação consegue produzir de bens e serviços. Quem é responsável por essa produção? Seus cidadãos, obviamente. O MEC sugere nas creches e escolas que se tenha um adulto para cada seis crianças de zero a seis anos de idade, um para cada quinze crianças de três anos e um para cada vinte crianças acima de quatro anos. Quando você não oferece creches, você afasta cinco adultos do mercado de trabalho nos primeiros dois anos, depois você afasta quatorze e, em seguida, dezenove. Entendeu a conta? Menos brasileiros em condição de trabalhar significa menos riqueza sendo produzida.

Em resumo, o discurso pela universalização de creches e escolas em tempo integral não deve ser visto como um discurso de esquerda, pois o brasileiro inteligente que é de direita sabe que há uma questão econômica essencial para o país nesse discurso. É hora, pois, de colocar esse tema no centro do debate e começar a investir pesado para que a maternidade não seja um peso para as mulheres e um fardo para o país.
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