23/11/2018 às 09h09min - Atualizada em 23/11/2018 às 09h09min

Saldo Positivo

MARIANA SEGALA
Qual a relevância do setor de tecnologia na economia de uma cidade? A pergunta tem várias respostas e muitos ângulos para explorar. Consultorias especializadas e entidades representativas são muito boas nas suas projeções para a grande figura – elas fazem estudos estimando o tamanho do segmento no país ou no mundo, por exemplo. Mas no nível municipal os números costumam ser escassos e a tarefa, bem mais difícil. Iniciativas como o Censo do Ecossistema de Inovação, feito anualmente em Uberlândia, são uma das maneiras que gestores públicos e empreendedores encontraram para tentar quantificar o setor – que, aliás, reúne ao menos 162 empresas e entidades na cidade, segundo a última edição.

Eu, que me preparava para a estreia dessa coluna hoje, decidi tentar dimensionar o impacto das empresas de tecnologia dando uma espiada nos empregos que o setor gera por aqui.

No ano passado, a segunda edição do Guia de Funções de Tecnologia da Informação e Comunicação no Brasil – elaborado pela Brasscom, associação que reúne perto de uma centena de empresas do setor – listou as 15 funções mais demandadas pelo segmento no Brasil. São profissionais como técnicos de manutenção de equipamentos de informática, programadores de sistemas, administradores de rede e gerentes de projetos.

Todo mês, o Ministério do Trabalho compila quantas pessoas foram contratadas e demitidas em cada uma dessas funções. Os números do país inteiro são reunidos no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) – que considera trabalhadores com carteira assinada, excluindo uma parcela dos profissionais com outros tipos de vínculos.

Juntando uma coisa com a outra, e lançando o olhar sobre a realidade local, eis o que é possível saber sobre as movimentações no mercado de trabalho formal da tecnologia em Uberlândia nos últimos anos:
- O número de contratações de profissionais de tecnologia (considerando as 15 funções destacadas pela Brasscom) cresce ano após ano na cidade. A demanda era de cerca de 1.000 pessoas por ano em 2013 e chegou a 1.536 no ano passado.
- Tudo mais constante, as admissões de profissionais de tecnologia neste ano devem superar as de 2017, já que, até outubro, 1.509 haviam sido contratados.
- Além de contratar muito, um segmento que esteja em expansão também demite pouco. Por isso, o saldo entre admissões e desligamentos é acompanhado tão de perto pelos especialistas. Pelo menos nos últimos cinco anos, Uberlândia contratou mais profissionais de tecnologia do que demitiu – mesmo nos anos mais duros da crise econômica recente. O saldo, de 40 postos de trabalho em 2013, passou para 292 no ano passado.
- Neste ano, novamente, mais profissionais de tecnologia estão sendo contratados do que demitidos: o saldo na cidade, até outubro, era também de 292 postos de trabalho.
- Os profissionais mais demandados neste ano em Uberlândia são os analistas de desenvolvimento de sistemas. Aliás, é a primeira vez (pelo menos desde 2013) que os analistas de sistemas figuram entre as dez funções com maior saldo entre contratações e demissões (199) na cidade inteira. Historicamente, a lista de “top 10” envolve apenas atividade que exigem menor qualificação, como servente de obras ou auxiliar de escritório.

O mercado de tecnologia de Uberlândia resistiu mesmo nos anos difíceis. Não houve, desde 2013, queda na contratação de profissionais – assim como as contratações sempre superaram as demissões (o saldo sempre foi positivo). “As maiores empresas de TI da cidade estão em segmentos que sofrem menos com mudanças bruscas de mercado, como softwares de gestão, automação de força de vendas e desenvolvimento para operadoras de telefonia”, diz Franciele Mendonça, diretora administrativa da Zillion Tecnologia.

É um desempenho mais estável do que o do maior mercado de tecnologia do estado. Em Belo Horizonte, o volume de contratações é três a quatro vezes maior – a demanda é de cerca de 5.000 profissionais por ano. Como é também um mercado mais sofisticado, há mais altos e baixos. O saldo lá chegou a ser negativo em 2015 e 2016, quando houve 864 demissões a mais do que admissões. Em 2017 e neste ano, as contratações voltaram com força. Só em 2018, o saldo é de 924 contratações na área de tecnologia.

Os números de Uberlândia animam diante do desempenho geral do emprego na cidade. A indústria e o comércio seguem demitindo. Só construção civil e serviços – setor que concentra as empresas de TI – contratam mais do que dispensam. O saldo de admissões, considerando todos os setores da economia, era de 1.354 até outubro. De volta ao princípio: qual a relevância do setor de tecnologia na economia de uma cidade? Parece cada vez maior.
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