20/11/2018 às 11h35min - Atualizada em 20/11/2018 às 11h35min

​Mercado de pulgas

Chuvinha mansa a trazer dia. Vontade de ficar um pouco mais debaixo das cobertas. Quem não gostaria? Infelizmente tinha um levantar a me esperar. Tinha nada, pois era domingo e podia ficar o tempo que quisesse ali, mas detesto perder a manhã, parte mais linda do dia. Os cheiros são novos, os olhares das gentes quase sempre mansos e vagarosos.

O delicioso Mercado de Pulgas a visitar. Perfeito para o dia.
Tomei rumo para o Mercado Municipal onde acontece sempre o evento. Cá comigo no pensar, tomo um belo café lá por perto e me deixo ficar a contemplar objetos e pessoas. Gente risonha, bonita no ver e comportar. Nenhuma desavença, discussão só de preços, pechinchar é preciso. 

Dei com os burros n'água. O Mercado de Pulgas fugiu da garoa. Mas o tempo riu tímido. Poderia ter acontecido. A chuvinha se desfez em um lindo dia de céu azul, sem nuvens. Mas como adivinhar? A feirinha da Sérgio Pacheco sempre acontece. Sinal de chuva, praça vazia. Poucas barracas, expositores, cantores e meu delicioso acarajé some. Contento-me quando lá, com o também saboroso churrasquinho ou com o yakisoba abrasileirado em tempero e sabor.

Mercado de pulgas. Não aconteceu o acontecido. Frustrado, passei a dar voltas sem rumo mercado adentro. Sinto-me um pouco incomodado, apreciador que sou de mercados municipais. Afinal, conhece-se uma cidade por meio deles.
Já pensou ir a Pádua e não conhecer o seu belo centro de comércio de cores e aromas? E a Boquería em Barcelona? Para os grandes vôos, o Grande Mercado de Budapeste ou na Tailândia, o fantástico Mercado Flutuante em Damnoen Saduak.

Se quiser ficar por perto saiba que o de Belo Horizonte é considerado um dos dez melhores do mundo. Uma viagem ao de Montes Claros ou São Luis, que também tem o seu, assim como Salvador e São Paulo com vitrais de Conrado Sorgenicht Filho.
O nosso é tímido e repetitivo em mercadorias. Parece que todo mundo, com raras exceções, vende a mesma coisa. Mas gosto dele assim mesmo e o frequento desde os tempos de estudante.

Os bares e algumas lojas fazem hoje seu diferencial. E, lógico, as manifestações artísticas lhe dão alma e mais vida.
Hora conto a história de um banquinho que comprei da senhora do acarajé, do box lá no canto do estacionamento. A negociação foi divertida e o banquinho nem era para vender. Era de uso da venda.

Ainda confuso com o dia e esperança perdida das belas antiguidades das pulgas, me deixei levar. 
Do nada, meio abafado, senti um batido a lembrar um ponto de umbanda: "Ogum é guerreiro/Que nos livra de todo mal/ Na Aruanda ele é cavaleiro/ Oh na Umbanda ele é general ogunhê ".
Assim imaginei ouvir. Segui em hipnose.  Deparei-me com uma porta aberta, que já dava em escada, como a convidar para entrar. Sem cerimônia subi devagar degrau por degrau, a imaginar o que lá poderia encontrar. Bela surpresa. Gente bonita, colorida, lugar de ali se deixar. Sorrisos sinceros na chegada, sem estranhamento nenhum ou olhar de cima para baixo como a julgar. Nem um "filho de quem"? Tão raro por cá.
Não sabia se era ensaio ou exercício, mas era lindo. A música, o rodar de vestidos de chita coloridos. Lembrei de minha adolescência e de tempos bem menos distantes. Deu vontade de entrar na roda, cantar, acompanhar o bater de palmas. Faltou coragem. Os olhos quiseram me pregar peça da alma e lágrimas ali se juntaram como orvalho em folha larga da mata.

Sentei em degrau da escada e a cabeça em rodopio me levou a ver lugares, gente, paisagem. 
Estranho não nos deixarmos mais chorar. Respirei fundo em alegria diferente, com cheiro de anis, biscoito de araruta e Oui de Lancome. Ganhei o domingo. Não houve mais mercado de pulgas. Pelo menos até agora, mas garimpei o "Centro de teatro de Uberlândia", assim dizia a placa esmaltada no alto da porta de entrada.
Ali, seguro, vou voltar sempre.

"Eu vi chover, eu vi relampear/ Eu vi chover/ Eu vi relampear/ Mas mesmo assim o céu estava azul (...)" (Ponto de Oxóssi)
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