12/11/2018 às 08h21min - Atualizada em 12/11/2018 às 08h21min

O mal quase invisível dos celulares

ALEXANDRE HENRY
Há poucos dias, entrei em uma livraria em Uberlândia e me dei conta de algo preocupante: eu não conseguia me lembrar de ter lido um livro sequer em 2018 que não fosse uma obra técnica ligada ao Direito. Logo eu, que li quase toda a biblioteca da escola onde passei os quatro primeiros anos da minha vida escolar e que tomei bronca no começo do casamento por ficar muito tempo envolvido só com minhas leituras!

Há algumas semanas, o sistema operacional do meu celular foi atualizado e passou a dedurar quanto tempo fico ligado em sua tela todos os dias. Assustei-me. Em média, passo de 2h30 a 3h diárias olhando para a tela do aparelho. Tudo bem que, em média, cerca de 45 minutos desse tempo são gastos lendo notícias de jornais, costume que eu transferi do papel para o computador de mesa e, depois, para o aparelho celular. Não dá para considerar perda de tempo a leitura de notícias e artigos jornalísticos. Mas, e o resto?

Somando um mais um, concluí rapidamente que o uso do celular, especialmente depois que ele passou a me dar acesso ao mundo da internet, incluindo e-mail e redes sociais, prejudicou totalmente o tempo que eu costumava dedicar à leitura de livros não-técnicos. No meu caso, não houve uma substituição do tempo de TV, que sempre foi muito pequeno. No geral, vejo TV menos de uma hora por semana. Assim, o que o celular fez foi mesmo levar para longe de mim os livros. Só não conseguiu afastar as obras técnicas, ligadas ao Direito, porque elas me são obrigatórias no cotidiano de juiz e de professor.

Pula para a quarta-feira da semana que se passou. Eu já estava no finalzinho do livro que comprei na minha última ida à livraria e decidi que iria levá-lo para a padaria, a fim de terminar as últimas páginas no meu tradicional café da tarde. Eu estava apaixonado na história daqueles dois meninos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, na França ocupada pelos nazistas, e queria terminar a leitura nos meus vinte minutos de lanche. Cheguei lá, pedi meu café com pão e comecei a ler. Consegui terminar a leitura junto com o café e então percebi algo que não aconteceria há pouco mais de duas décadas: quatro anos frequentando a mesma padaria e não me lembro de ter visto ninguém sentado lá lendo um livro enquanto tomava café da manhã ou o lanche da tarde. Claro que devo ter encontrado alguém com um livro em algum momento, mas não consegui me lembrar. Por outro lado, olhei ao redor e quase todo mundo estava com o celular na mão, mesmo quem tinha companhia na mesma mesa. Pela minha experiência, o que só piora a nossa realidade, creio que quase ninguém ali estava fazendo algo de muito útil ou instrutivo com o aparelho, como ler um jornal. A maioria, com certeza, estava navegando em redes sociais ou passando tempo com outras atividades banais.

Eu não tenho nada contra celular, até porque tento sempre ter um bom modelo, rápido e com muitas funções. Também não tenho nada contra redes sociais, embora tenha deletado o Facebook do celular para evitar abri-lo constantemente. Adoro mandar piadas pelo WhatsApp, gosto de ver fotos no Instagram e, sim, ainda acesso o Facebook, embora apenas no computador. Sou adepto da tecnologia desde o final da década de 1980, quando meu pai comprou um computador da era dos dinossauros. Gosto das inovações e acho que as ferramentas criadas a partir das infinitas possibilidades da internet tornaram o mundo melhor.

Porém, não dá para negar que o celular está fazendo um mal danado para os livros. Não se vê quase ninguém mais com um livro na padaria, no restaurante, nas praças, nos ônibus, em lugar algum. Livrarias estão fechando na mesma rapidez com que as pessoas digitam suas centenas de mensagens e postagens diárias nas redes sociais. Uma pena. Seria melhor que as duas coisas pudessem ser conciliadas. Gostei muito de voltar a ler um livro por lazer, percebi que ele me fez consultar menos o celular por alguns dias e me trouxe mais calma, menos ansiedade, já que a leitura exige concentração e continuidade. Vou tentar retomar meu antigo hábito de leitura. Acho que vai me fazer bem. Torço para que outras pessoas também façam o mesmo. Nada que é demais, como têm sido os celulares e as redes sociais, faz bem para o ser humano.

Em tempo: o livro que li é uma autobiografia e se chama “Os meninos que enganavam nazistas”, de autoria de Joseph Joffo. Recomendo a leitura da obra, especialmente para quem gosta de ler sobre a Segunda Guerra Mundial e quer conhecer um pouco mais da vida de quem não estava nos campos de batalha.
 
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