25/06/2018 às 11h37min - Atualizada em 25/06/2018 às 11h37min

​Uberlândia e o transporte urbano

ALEXANDRE HENRY ALVES | COLUNISTA
Quando a gente viaja para o exterior, é inevitável fazer comparações com o Brasil. No quesito “transportes”, três cidades me fizeram estabelecer um paralelo com Uberlândia: Innsbruck e Viena, na Áustria, e Lausanne, na Suíça. Tudo bem, tudo bem! Eu sei que comparar uma cidade de 1º mundo conosco é crueldade, mas calma que você vai entender aonde eu quero chegar.
Lausanne tem 131 mil habitantes, um pouco menos do que nossa vizinha Patos de Minas. Mas, já conta com metrô há cerca de uma década. Quanto ao sistema de ônibus, existe, em cada ponto, uma informação acerca dos horários em que eles ali passam, tudo para que as pessoas não percam tempo. A mesma informação consta nas paradas de ônibus de Innsbruck, que visitei recentemente, sendo que lá, em muitos pontos, há um pequeno painel eletrônico informando quanto tempo falta para chegar cada ônibus que passa por ali. Innsbruck, cuja população é de cerca de 190 mil habitantes, não tem metrô, mas tem o chamado “tram”, que é uma espécie de bonde elétrico moderno.
Vamos para outra cidade. Viena, capital austríaca, cuja população supera 1.750.000 habitantes, tem ônibus e metrô, claro, mas o que mais me deixou impressionado não foi isso e, sim, a quantidade de ciclovias. Lembre-se que estamos falando de uma cidade histórica, projetada há centenas de anos, com prédios seculares e construções que, nem em sonho, podem ser demolidas. Mesmo assim, Viena conseguiu a façanha de ter 1.300 quilômetros de ciclovias bem sinalizadas, que são respeitadas por carros e pedestres. Além disso, possui mais de uma centena de estações de aluguel de bicicletas.
Vamos às comparações então. Uberlândia, apesar de ser bem maior do que Innsbruck e Lausanne, não tem um metrô. Não cobro que tenha, pois sei que essa é uma obra caríssima e, se não temos dinheiro, temos que investir em outras soluções. De toda sorte, um metrô pode ser muito mais barato se for pensado com antecedência, durante a evolução de uma cidade. Ao se permitir a construção de um novo bairro, já deve ser vislumbrada a hipótese de, ainda que em um futuro remoto, ter-se uma linha de metrô passando por ali. Esse planejamento é quase de graça para o poder público, mas não acredito que tenha sido feito em nossa cidade.
Aliás, o planejamento é nosso “calcanhar de Aquiles”, muito mais do que a falta de dinheiro. Ainda que não se preveja a construção de uma linha de metrô, dá para pensar em novos bairros e novas vias tendo-se em mente a futura construção de corredores de ônibus ou, quem sabe, até os bondes elétricos. Nesse quesito, acredito que pouco planejamos, embora sejamos uma das cidades bem evoluídas do Brasil quando se fala em transporte por meio de ônibus. Quanto às bicicletas, transformar parte da estrutura viária em ciclovias é algo factível e relativamente barato. Porém, não temos isso em Uberlândia. As poucas ciclovias que temos são invadidas por pedestres desavisados, que são capazes de xingar e partir para a agressão se você reclamar que eles estão no lugar errado. Faça o teste na avenida Rondon Pacheco e você verá.
Além da falta de planejamento inteligente, pecamos em Uberlândia pela supervalorização do carro. Isso inibe a criação de ciclovias, o investimento em novos corredores de ônibus e em outras questões ligadas ao transporte público. E essa supervalorização do carro é causa e consequência da falta de planejamento. Um exemplo é a liberação de mais condomínios fechados na região Sul da cidade, do outro lado do rio Uberabinha. Agora, a cidade terá que gastar obrigatoriamente com novas pontes, e com razão. Mas, não precisaria desse gasto se tivesse planejado corretamente, proibindo a expansão de novos condomínios residenciais até que os grandes espaços urbanos que estão vagos, por pura especulação imobiliária, fossem ocupados. Estrago feito, ao invés de gastarmos com ciclovias e mais corredores de ônibus, gastaremos com pontes.
Enfim, é possível comparar cidades de 1º mundo com a nossa, sim, pois elas têm muitos bons exemplos, no âmbito do transporte público, que não são caros para a nossa realidade. Claro, desde que façamos um planejamento urbano adequado, combatamos a especulação imobiliária (é só elevar bastante o IPTU sobre lotes vagos e proibir loteamentos para além dos bairros já construídos) e coloquemos os veículos na última posição entre os meios de transporte a receberem atenção do poder público. Não queremos ser uma cidade como as de 1º mundo? Pois então, é isso que lugares como Innsbruck, Lausanne e Viena fazem.

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