25/06/2018 às 11h29min - Atualizada em 25/06/2018 às 11h29min

Baiano

WILLIAM H STUTZ | COLUNISTA
DIVULGAÇÃO
Existem coisas que me intrigam e uma delas é essa história de que baiano é preguiçoso. Até onde pesquisei, usando a mais alta tecnologia da Nasa, da base de Alcântara que está às moscas, conforme informações de fontes sigilosas. Juro que tentei tambérm a nossa Agência Espacial Brasileira (AEB), mas a mesma encontra-se em quase ponto morto por excesso de burocracia e falta de recursos. À boca miúda lhes conto, acho que vão privatizar o belo lugar para a Empresa Espacial Paraguaya (EEP). Bom, pelo menos peças de reposição "importadas" eles terão de sobra. Particularmente, se eu fosse dono de lá venderia para Disney. Teria aventura de sobra.
Você querido leitor, virtuosa leitora, já teve a oportunidade de visitar o Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão?
Se a resposta foi não, te conto sem medo de errar que Alcântara é uma vila colonial linda e vale a visita. Até se puder ficar lá pra sempre. O problema é o chegar e voltar. Moço de Deus, a viagem dura nem duas horas. Se o mar estiver de brigadeiro, no caso de almirante, verá uma beleza incrível e vivenciará um prazer imensurável diante da poética brisa marinha e das gaivotas a acompanharem o catamarã. Vai nessa não, pois sistematicamente ali o mar nunca está pra peixe e com onda de metro, põe metro nisso, se seu estomago for fraco vai chegar verde do outro lado. Duvido que consiga ter olhos para tamanha beleza local. Tudo que você vai querer é ficar deitado e a gemer, enquanto os mais resistentes, ou que tiveram o cuidado de tomar um remedinho para enjôo, se deleitam. Fica o conselho, vá mas durma lá e aproveite o dia seguinte.
Bom, vamos deixar minhas pesquisas e roteiros turísticos lunáticos de lado e descer para a Bahia. Terra de tantos como nosso imortal "Capitão do mato Vinicius de Moraes.
Poeta e diplomata. O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!"
Pois assim crescemos ouvindo histórias sobre a preguiça de baiano, a começar pela bobagem de que ele é mineiro cansado. Que nada, mineiro que sou me pego a pensar o contrário, pois  queria morar em alguma prainha morna daquela terra abençoada. Desconfio que os portugueses só se interessaram  pelo Brasil porque desembarcaram na Bahia. Amor a primeira vista. Se tivessem dado em outras praias talvez as tivessem deixado para os espanhóis.
Aqui as histórias da mandriice baiana estão em todas as bocas não nativas da terra dos Orixás. Contam que por lá o carnaval começa seis meses antes e termina seis meses depois da data certa e emenda às comemorações do Natal e Reveillon (do ano seguinte). Tudo intriga.
E tem a conhecida, mas digna de registro: 
─ Mainha, tartaruga morde? Quinze minutos depois:
─ Morde não, mas por quê? Silêncio longo.
─ É que uma lá invem loonnge.
Tudo enredo, existe isso não. Exagero de quem lá vai. Ora, você é turista acelerado, vem do mundo do stress, da hora marcada, do compromisso. Da ditadura do relógio, tipo, se chegar dez minutos antes para um compromisso chegou na hora, se chegar na hora exata está atrasado, se chegar dez minutos depois perdeu o compromisso. Caraca meu, já tomou seu ansiolítico de hoje? O medicamento para a pressão, colesterol, ácido úrico, gastrite, esofagite, úlcera?  Olha o enfarto! Não é o baiano que é devagar, é você que está desregulado.
Desacelera moço, "Cuidado, companheiro!/  A vida é pra valer/ E não se engane não, tem uma só/ Duas mesmo que é bom/ Ninguém vai me dizer que tem/ Sem provar muito bem provado/
Com certidão passada em cartório do céu/ E assinado embaixo: Deus/  E com firma reconhecida!"
O Baiano na verdade é prático, só isso. Conto fato acontecido com pessoa que tem por paixão o Mercado Modelo em Salvador. Tinha turistado montes, subido e descido ladeira sob escaldante sol de verão, a sede apertou brava.
Entrou no mercado ávida por uma limonada gelada ou uma refrescante água de coco. Foi nada. Sentou-se em boteco e pediu logo limonada SEM açúcar. Quase uma hora depois chega o imenso copo de suco com muito gelo e, para seu espanto, no fundo quase dois dedos de açúcar repousavam em ligeiro balançar de areia.
─ Mas moça eu pedi sem açúcar! Olha isso!
A garçonete pegou com cuidado o copo. Bom, pensou, vai trazer outro. Ao retornar, com o mesmo cuidado ela colocou o copo na mesa outra vez e com voz mansa, quase suspirando disse:
─ Liga não, é só não mexer...
Preguiça? Nunca. Praticidade uai, não é meu rei?
 " É melhor ser alegre que ser triste/ Alegria é a melhor coisa que existe/  É assim como a luz no coração (...)"
 
Nota do Autor: Trechos em itálico "roubados" sem maldade do maravilhoso Samba da Benção, do gênio baiano Vinícius de Moraes.
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