14/03/2018 às 09h20min - Atualizada em 14/03/2018 às 09h20min

​Nossa sociedade está corrompida?

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA | COLUNISTA

A palavra “corrupção” parece estar cada vez mais em alta no Brasil. Para nossa infelicidade e descrença, é quase impossível escaparmos dela. Com a repercussão majestosa alcançada pela Operação Lava Jato, que investigou dezenas de políticos, empresários e figuras públicas e acabou se desdobrando em operações menores e com diferentes objetivos, tudo o que conseguimos visualizar em nossos jornais, revistas e programas televisivos são escândalos e mais escândalos envolvendo condutas corruptas de nossos governantes.

Com a banalização dessa palavra no vocabulário e na rotina do brasileiro, seu significado acabou se perdendo. Ela é associada, de forma geral, às classes políticas e empresariais, quando na realidade se refere a condutas que envolvem a promoção de vantagens indevidas a qualquer um por meio de comportamentos relacionados a comissão, suborno, estelionato, etc. Desta forma, é possível encontrarmos a corrupção em diversas “camadas” da nossa sociedade – desde um estudante que trapaceia em um teste até um funcionário de alto escalão que desvia fundos da empresa para suas contas pessoais.

Engana-se, portanto, aquele que pensa na corrupção como algo recente. O descumprimento das leis e normas tendo em vista o lucro pessoal não é uma invenção moderna: não é à toa que os maiores pensadores e filósofos da história, como Rousseau, Locke e Maquiavel, desenvolveram teses e reflexões sobre a natureza do comportamento corruptivo e caótico dos seres humanos – estudos que, ainda hoje, levantam inúmeras discussões e debates no ambiente acadêmico. Alguns, como Rousseau, atribuem as posturas “maléficas” do homem ao convívio em sociedade, enquanto outros afirmam que ela atua como “domadora” dos seres humanos, criando normas e leis que façam com que andemos na linha. Seja como for, a conclusão natural – e porque não dizer, absurda – a que chegamos é que a humanidade e a corrupção sempre estarão atreladas.

O que parece agravar a situação em nosso país, contudo, é a ineficiência da legislação em punir e corrigir essa espécie de conduta – ineficiência que, ao longo da história, culminou numa espécie de naturalização dos comportamentos corruptivos em nossa sociedade. Essa naturalização, inclusive, cunhou o famoso termo “jeitinho brasileiro”, que se refere à especialidade do brasileiro em driblar situações complicadas e até mesmo problemáticas. Inevitavelmente, somos coagidos a “dançar no ritmo da música”.

E é aí, para o aumento de nossa descrença, que reside a fragilidade do Brasil enquanto nação. Uma sociedade que naturaliza e diminui o impacto de comportamentos corruptivos, ainda que em menor escala, no sistema político e econômico como um todo, não possui as menores condições de por um fim à corrupção sistêmica que assola os mais diversos níveis de seu aparato político e burocrático.

Pensando estrategicamente, indago se nossa sociedade está, de fato, corrompida, entregue às margens do egoísmo e da malandragem. Enquanto continuarmos, mesmo que inconscientemente, a favorecer aqueles que têm em mente apenas o benefício próprio, a corrupção e a malandragem continuarão seus reinados – enquanto a consciência social, a empatia e a valorização do bem comum seguirão nas sombras de uma sociedade corrupta e depravada. Precisamos nos questionar sobre os caminhos a serem seguidos para restabelecermos o mínimo de moralidade em nosso país, visando um futuro onde possamos criar nossos filhos, netos e bisnetos sem o medo latente de entrega-los à uma sociedade que corrompe e escracha a virtude da honestidade.
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