13/02/2018 às 05h54min - Atualizada em 13/02/2018 às 05h54min

Nós e o carnaval

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Eu me lembro como se fosse hoje. A ideia era juntar a turma de amigos do último ano do Ensino Médio, na época chamado de 3º Colegial, e passar o carnaval em Campina Verde, que estava no auge do sucesso com a sua festa de rua. Arrumamos tudo para dormir em barracas, juntamos os trocados e pegamos o ônibus da rodoviária de Uberlândia. Viagem boa, de muita brincadeira e ânimo lá nas alturas. Só que, quando chegamos ao destino, as coisas não foram como planejado. Não sei qual foi o problema que deu com o tal do acampamento, só sei que arrumaram uma casa alugada, para que dormíssemos no chão. Problema? Nenhum, pois nunca tive frescura. E, afinal de contas, da barraca para um saco de dormir no chão de uma casa, qual era a diferença? No final, a casa era até mais interessante, pois ficava perto da rua onde a festa era mais forte.

O problema foi outro. O custo de colocar uma barraca em um terreno baldio ou em um camping improvisado é um, o custo de alugar uma casa, outro. Estudante, “durango kid”, eu tinha levado o dinheiro contado e parece que foi contado mesmo: tudo o que eu tinha foi no pagamento da minha parte na casa. Sobrou o teto e um monte de cervejas que havíamos levado. Confesso que aquilo já me deixou muito contrariado, pois não sou de apreciar barriga vazia por quatro dias. No mais, mesmo que alguém emprestasse, o que certamente aconteceria, o dinheiro seria ainda mais contado do que de início. De toda forma, joguei-me na brincadeira e lá fomos, no começo da noite, para a avenida.

Resumo da ópera: no outro dia, juntei as minhas coisas, pedi à turma parte do meu pagamento pelo aluguel da casa de volta, entrei no ônibus e retornei ao grande túmulo uberlandense do samba, onde eu tinha deixado minha namorada que, até hoje, não sei como me liberou para aquele carnaval. Sim, o problema foi a falta de dinheiro, mas não foi só esse. Meus amigos estavam quase todos no mesmo barco furado que eu e, mesmo assim, resolveram ficar. Eu? Bem, ao colocar os pés naquela avenida, tive a certeza de que realmente não tinha nascido para aquilo. Para começar, eu já não sou tão fã de beber. Nunca deixo meu copo vazio quando sento em uma mesa com amigos para uma cerveja, um vinho ou o que quer que seja. Mas, nunca meu copo é completado mais do que duas ou três vezes. Tenho um estômago que, sinceramente, nunca me deixa tomar um pouco além da conta sem desandar em uma náusea horrível. Se isso é bom ou ruim, até hoje eu não descobri. Bom, mas voltemos à festa. Eu estava ali, em pleno carnaval de Campina Verde, já tinha tomado duas latinhas e não estava animado a beber mais pelas próximas duas horas. Fazendo conjunto com meu estômago chato, minhas pernas não se animavam a pular carnaval. Nunca fui de dançar, o que eu acho um defeito. Pena para mim, que não aproveito algo maravilhoso deste mundo que é a dança. De toda sorte, essa era a minha realidade naquele momento (e continua sendo até hoje) e, por isso, comecei a não ver muita razão em ficar ali naquela avenida sem beber e sem pular carnaval. Fechando a tríade do desânimo, os hormônios não afloraram para nenhum pecado, até porque a namorada tinha ficado em Uberlândia e meu espírito não estava para arrumar uma substituta.

Meu carnaval acabou no sábado pela manhã, ao regressar a Uberlândia. Depois disso, ainda tentei umas duas ou três vezes. Na última delas, há quase duas décadas, fui para Caldas Novas. Fala sério! Alguém como eu combina com o que ocorre no “paraíso” das águas quentes? Era tanta bagunça, tanta confusão, que eu me sentia um... Sei lá, nem sei o que eu me sentia! Para piorar, havia levado a minha namorada, o que é um erro estratégico gigantesco para quem vai passar carnaval em locais como Caldas Novas ou Salvador. Nada contra a namorada em si, mas no meio daquela confusão, vocês não terão paz para namorar e os dois passarão raiva com quem está ali só para pegação e que, certamente, vai querer pegar um dos dois. Enfim, outra experiência ruim que tive com o carnaval.

Hoje, como deve se o seu caso, já que está lendo uma coluna de jornal em pleno domingo de carnaval, eu faço como muita gente: aproveito o feriado para descansar ou fazer alguma viagem mais calma, mas nada de folia. No máximo, uma ida ao clube para me distrair durante um tempinho e só.

Eu juro que não é preconceito contra a festa mais popular do nosso país. É incompatibilidade, só isso. Não acho um absurdo o povo brincar carnaval e até tenho vontade de ir, um dia, ao desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, pois deve ser um espetáculo maravilhoso ao vivo. Mas, viajar para mergulhar em cinco dias de folia no meio do povão, no meio da pegação e da bebedeira, sinceramente, requer algum gene que não me foi concedido quando fui gerado.
(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com
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