06/02/2018 às 18h50min - Atualizada em 06/02/2018 às 18h50min

O Brasil só funciona depois do Carnaval?

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA | COLUNISTA

Ah, o Carnaval! A festa milenar que, durante quase uma semana, paralisa o Brasil! São dias de folia onde os brasileiros saem às ruas para comemorar e os grandes artistas lotam os sambódromos nesta celebração épica da cultura nacional. As comemorações carnavalescas são tão importantes que há quem diga que o Brasil só começa a funcionar, de fato, após o Carnaval.

O Carnaval é um período anual de festas profanas originadas ainda na Antiguidade e que chegou ao Brasil por volta do século XVII, sob influência europeia. Com o passar do tempo, a diversidade étnica e cultural brasileira incorporou novas práticas e costumes às festas carnavalescas. Atualmente, a festa já é considerada parte integral do repertório cultural brasileiro e mistura elementos das antigas religiões pagãs e do cristianismo, sendo tida como uma comemoração dedicada aos prazeres da carne – a própria palavra “carnaval” tem origem do latim “carna vale”, que significa “adeus à carne”. As pessoas encaram esta época do ano como uma “carta branca” para ignorarem as responsabilidades e entregarem-se à orgia do Carnaval, e por este e outros motivos o Carnaval brasileiro adquiriu uma conotação que remete à bagunça, desorganização, embriaguez, fantasias e etc.

Apesar de ser considerada a festa mais popular do país e um dos maiores símbolos da cultura nacional, o Carnaval ainda divide opiniões: de um lado, os aficionados que defendem o momento de alegria e descontração, fazendo esforços monumentais para participar dos quatro dias de festa que se alastram do norte ao sul do Brasil. Em contrapartida, temos os críticos, que encaram a folia como um desperdício de tempo e dinheiro, prejudicial não apenas à economia, mas também a imagem do país perante a comunidade internacional.

Toda moeda possui duas faces, e isso não é diferente quando se trata do Carnaval. Por ser uma comemoração de repercussões nacionais e internacionais, a festa tem um papel importante na economia do país, especialmente em cidades onde as comemorações são mais famosas, atraindo milhares de turistas de todos os lugares do mundo. Além disso, é impossível negar o clima contagiante da festa, principalmente quando assistimos na TV aos desfiles majestosos das escolas de samba de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Mas, existe também o lado negativo: o Carnaval paralisa o país por praticamente uma semana, e neste período ele domina não apenas a agenda pública, mas também a agenda midiática, muitas vezes ofuscando pautas importantes como a política e a economia nacional. Essa festa ressalta com mais força a presença das desigualdades sociais no Brasil – já que a elite brasileira gasta milhões em seus eventos privilegiados enquanto a miséria e a violência imperam nas mesmas cidades onde essas festas e desfiles são realizadas. Também no Carnaval a população tende a esquecer dos grandes problemas enfrentados pelo país, como a crise política e econômica e os intermináveis casos de corrupção que varrem nossa nação.

O professor Renilmar Fernandes afirmou que “não se pode esperar muito de pessoas que vivem de futebol, carnaval e televisão. Que dirá de um país.” Para não deixarmos que o Brasil se transforme num grande e eterno Carnaval, precisamos pensar estrategicamente. Num país onde cinco brasileiros concentram a mesma riqueza que mais da metade da população, não deveríamos funcionar por mais dias? O Carnaval realmente possui suas vantagens, mas não podemos deixar que este maravilhoso – e, de certa forma, perigoso – evento nos tire o foco daquilo que realmente importa: os interesses da nossa nação.
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