29/01/2018 às 05h49min - Atualizada em 29/01/2018 às 05h49min

​O bumbum da Anitta

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Se tem uma cantora brasileira da atualidade que gera opiniões em sentidos absolutamente contrários é a Anitta. As críticas a ela já são conhecidas: música de péssima qualidade, vulgarização da mulher etc. Já as positivas vão desde a qualidade das músicas dela (mostrando que gosto é algo bem particular mesmo) até o engajamento de Anitta com algumas causas importantes. Particularmente, assisti ao show dela em uma festa de casamento e achei bem fraco. Não sei se era o fato de não ser uma grande produção (como dito, era um casamento) ou de já ser bem tarde e ela estar cansada, mas a questão é que ela não me empolgou. Quanto às músicas em si, acho que ela faz algo para se dançar e, nesse sentido, quem gosta de remexer o corpo provavelmente não acha as produções dela tão ruins.

Apesar de não ter achado o show dela bom e de não ser fã de suas músicas, eu admiro um ponto da cantora, que é justamente o seu engajamento com temas importantes. Desta vez, ela provocou polêmicas das mais diversas com o clipe “Vai malandra”. Daria uma tese de doutorado discutir a forma como ela abordou a comunidade em que o clipe foi gravado, bem como a maneira como quis passar a imagem de seus moradores. Deixemos isso de lado, ao menos neste texto. Eu me fixo nos segundos iniciais do vídeo, no qual é mostrado o bumbum de uma mulher, supostamente Anitta (não pesquisei, mas acho que é dela mesmo), que está fora dos padrões que costumamos ver nas revistas, na publicidade, na TV e no cinema. Fora dos padrões? Sim, pois é um bumbum flácido e cheio de celulite, algo que não se vê com frequência nas telas.

Esqueça todo o resto que possa ser criticado e mantenha a concentração na imagem desse bumbum. É ou não é algo a se elogiar da cantora? Ops! Esqueci de ser mais claro: não estou pedindo para você elogiar o bumbum dela em si, mas para perceber o quanto é importante inserir um corpo real em uma produção que vai ser vista por milhões de pessoas. Quando vamos ao clube ou à praia e nos deparamos com muitas mulheres de biquíni, o modelo de bumbum mais comum não é o dos comerciais ou filmes, todos perfeitos, levantados, pele parecendo de bebê, sem uma celulite ou estria qualquer. O que vemos é um desfile dos mais variados tipos de bumbuns, mesmo entre as adolescentes ou mulheres na casa dos vinte anos. A maioria deles está distante da perfeição pregada nas telas: tem celulite, é ao menos um pouco caído e está longe de ter aquela rigidez e aquele formato arredondado que costumamos ver na ficção.

É aí que elogio Anitta. É claro que quase toda mulher queria ter um bumbum “perfeito”, que causasse impacto por onde passasse de biquíni – ou sem. É claro também que quase todo mundo gosta de ver um bumbum grande, liso, firme e arredondado, sem celulites ou estrias. Só que isso não pode significar uma opressão contra quem não se enquadra nesse padrão, ou seja, contra quase todas as mulheres do mundo real. E quando as revistas, TV’s, cinema etc. mostram apenas o que é perfeito, elas acabam passando a ideia de que o que não se encaixa nesse padrão não deve ser mostrado. Aí vem a Anitta e passa a mensagem de que não, não é assim, quem tem um bumbum da vida real não precisa ter vergonha, pode colocar um short curto ou biquíni e passear na frente dos outros sem medo de ser feliz.

Eu sei que o clipe de Anitta traz inúmeros outros bumbuns que seguem o padrão das revistas e demais produções da mídia, mas o destaque feito ao corpo real no começo da produção já valeu. Eu sempre critiquei a opressão que há sobre as mulheres quanto a essa necessidade de perfeição estética, que leva quase todas ao estresse em busca de algo inatingível, além de fazer a alegria dos profissionais que ganham dinheiro com esse mercado. E também sempre critiquei o fato de que a maior opressão vem das próprias mulheres, pois muitas das revistas femininas que só exibem corpos perfeitos têm jornalistas e editoras majoritariamente femininas. Mais do que isso, quem critica com mais violência uma mulher que exibe um corpo fora dos padrões ideais é a própria mulher, que não perdoa a outra que passa na sua frente lá no clube só de biquíni, exibindo um bumbum levemente caído e com algumas celulites.

Por tudo isso, ver uma mulher que é nova, que ganha dinheiro com imagem e que tem todos os recursos para seguir o padrão, exibindo só corpos perfeitos (inclusive o dela, com todas as correções possíveis dos editores de imagens), dar destaque a um bumbum da vida real no início de seu novo clipe é algo que me deixa feliz. É alguém chamando homens e mulheres para a realidade, dizendo “Olha, o padrão é esse, não aquele, e ninguém tem que ficar se matando para alcançar o que não pode ser alcançado”. Enfim, parabéns para a Anitta por essa atitude. O mundo precisa de mais lucidez e menos opressão.
 
(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com
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