22/01/2018 às 05h51min - Atualizada em 22/01/2018 às 05h51min

A qualidade das nossas músicas

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Nos últimos dias, circulou pelas redes sociais uma comparação entre os melhores artistas do ano de 1987 e os melhores de 2017. Na primeira lista: Roberto Carlos, Djavan, Marisa Monte, Caetano Veloso, Legião Urbana, Gal Costa, Gilberto Gil, Marina Lima, Renato Teixeira & Almir Sater, bem como Zé Ramalho. Na segunda: Pabllo Vittar, Luan Santana, Anitta, Marília Mendonça, Ludmilla, Nego do Borel, Simone & Simaria, Maiara & Maraisa, Mc Kevinho, Thiaguinho. Ao final da postagem, a seguinte pergunta: “Atrofia cultural, ferrugem intelectual ou alienação midiática”?

Eu não sou fã de nenhum dos nomes da lista de 2017 e gosto de praticamente todos da lista de 1987. Porém, ao ver a postagem, de cara já percebi que era uma montagem falsa. Basta pensar em Marisa Monte, cujo primeiro disco só foi lançado em 1989. Não sou especialista em Almir Sater, mas, pelo que me consta, ele só estourou mesmo no início dos anos 1990, quando participou da novela Pantanal. Aliás, se minha memória não falha, também foi nessa época que começou a parceria dele com Renato Teixeira. Enfim, a lista é uma fraude, como a maioria das postagens que a gente vê circulando nas redes sociais. Bastam dois neurônios e uma ligação mínima entre eles para perceber as montagens e as chamadas “fake news”.

Bom, mas independentemente disso, o fato é que o autor dessa lista “fake” quis passar a mensagem de que a música dos dias atuais é muito mais pobre do que aquela de trinta anos atrás. Como fã do rock brasileiro e de vários nomes da MPB, até que tendo a concordar. Mas, a música sempre teve sucessos de qualidade questionável, não importa a época. Nem sempre o que entendemos como algo tecnicamente elogiável é o que a maioria da população gosta. Se fosse assim, Mozart e outros nomes da música clássica nunca sairiam das paradas de sucesso.

Voltemos à comparação da música da década de 1980 e começo dos anos 1990 com os sucessos atuais. Uma das grandes críticas que se faz é em relação à pornografia musical que se instalou no Brasil, com letras que só remetem a sexo e temas do gênero. Mas, e antigamente? Tinha menos disso, claro. Mas, tinha. Sucesso do carnaval de 1991, a música “Rala o pinto” dizia: “E rala o pinto / E tá beleza / Rala a bundinha / E tá legal / No coqueirinho / Carrinho de mão / E mexa mais / E o boquete / E a espanhola / E rala a tcheca / E tá gostoso / O narizinho / E vai subindo / E vai descendo / E rala o pinto / E tá legal...”. Percebeu? A música é uma sequência de atos sexuais, simples assim. Aliás, nem consigo imaginar, até hoje, o que é o tal do coqueirinho.

Sigamos em frente. Havia uma banda, nos anos 1980, que fazia muito sucesso: Camisa de Vênus. O nome já é um alerta. Particularmente, gostava bastante do som deles. Mas, havia algumas músicas da banda que, hoje, levariam seus membros à cadeia, com toda certeza. Sílvia era uma delas. A canção tratava de uma mulher de nome Sílvia, que era chamada de piranha o tempo inteiro, culminando com o xingamento de “puta” no fim da música. A letra dizia que ela fora pega com a mão no pau do vizinho, que foi flagrada usando um vibrador, que o leiteiro andava mamando nos peitos dela, entre outras coisas. E vinha com um bordão para causar infarto em qualquer feminista: “Todo home que sabe o que quer pega o pau pra bater na mulher”. Nos anos 1990, a banda Raimundos também teve muitos sucessos, como “O pão da minha prima”, no qual cantava: “Mas o viado do padeiro é um cabra muito safado / Pra comer a minha prima se fingiu de namorado / E ainda forçou a coitadinha a soltar a tarraqueta / Eu disse não dê a boceta”.

Sim, acho que a qualidade musical piorou de lá para cá. Olhando a lista (verdadeira) das músicas nacionais mais tocadas em 1987, a primeira delas é “Que país é este?”, da Legião Urbana. Entre as primeiras, também estavam canções de Lulu Santos, Cazuza, Ira!, Capital Inicial, Kid Abelha etc. Tudo artista que me desce muito melhor do que os atuais. Mas, fico pensando se a minha sensação de piora musical não seria pelo fato de eu gostar de rock e MPB, gêneros atualmente em baixa, ao invés de sertanejo e sons dançantes, agora dominando as paradas de sucesso. Será que não é por isso? Será que não é meu gosto que envelheceu?

Talvez seja isso ou talvez realmente a qualidade tenha caído. Não sei. O que eu sei é que, ao contrário do que várias postagens tentam passar, a música de algumas décadas atrás não era dominada só por grandes artistas com qualidades musicais inegáveis. Se as paradas de sucesso tinham músicas com letras mais inteligentes e melodias mais ricas (será?), isso não significa que cantores populares, com hits grudentos e musicalmente pobres, não frequentassem o topo das rádios.
(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com
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