15/01/2018 às 05h41min - Atualizada em 15/01/2018 às 05h41min

Em prol da universidade pública paga

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Reportagem de Vinícius Lemos, deste Diário de Uberlândia, publicada no dia 31/12/2017 revela: “Quatro em cada 10 alunos da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) abandonam seus cursos, de acordo com a própria instituição. O dado chama ainda mais atenção quando somado ao número de universitários que foram reprovados em seu ciclo acadêmico e não se formaram no tempo previsto, o que representa outros quatro em cada 10 estudantes”.

Esses números são assustadores. Eles significam não apenas problemas com nossos alunos, mas prejuízos graves aos bolsos dos contribuintes, inclusive o seu. Um aluno que abandona o curso dá prejuízo ao povo de duas formas. Primeiro, porque aquele tempo que ele passou na universidade não vai se transformar em riqueza para o país, pois ele provavelmente não transformará o pouco conhecimento adquirido em retorno para a sociedade. Segundo, porque ele ocupou uma vaga que poderia ser de outro aluno, muitas vezes bem mais necessitado do que ele. Se você colocar uma média de R$ 1.200,00 de custo mensal por estudante (algo irrisório quando se fala, por exemplo, em cursos bem mais caros, como medicina), em um curso com cinco anos de duração, a evasão de um único aluno provoca um prejuízo de R$ 72.000,00. Isso porque é preciso considerar não apenas os anos em que ele ocupou a vaga, mas também o vazio por ele deixado na sala de aula após abandonar o curso, o qual deverá ser mantido até o final, ainda que com um só aluno.

Vamos tornar esses números mais chocantes. A reportagem diz que são cerca de 8,5 mil alunos desistentes nos 87 cursos oferecidos pela UFU. Isso dá a bagatela de R$ 612.000.000,00 de prejuízo aos bolsos dos contribuintes, considerando apenas a UFU, é claro. Se pegarmos todas as universidades públicas do país (são mais de 60 instituições apenas no âmbito federal, sem considerar os institutos tecnológicos), teremos um rombo bilionário custeado por mim, por você e por qualquer cidadão que compre qualquer produto em território nacional. Sem contar os alunos que demoram muito mais tempo do que o normal, seja por não terem uma boa base quando chegam à universidade, seja por serem preguiçosos mesmo.

A gente pensa muito em corrupção, em falcatruas de políticos, desvios de verbas, mas esses prejuízos como o que citei acima podem causar tanto mal quanto tudo aquilo que você condena.

Por essas e outras, fui e continuo sendo um fiel defensor do ensino público superior pago por quem pode pagar. A tendência das pessoas é não dar muito valor ao que é de graça. Por que o sujeito abandona o curso? Pode ser por dificuldade de aprendizagem, sim, mas em muitos casos é porque ele não gastou um centavo pelos dois ou três anos que ficou na universidade. A mesma coisa acontece com as reprovações frequentes. Para que eu vou estudar muito se posso repetir a disciplina sem pagar um centavo a mais por isso?

Cobrar pelo ensino superior ajudaria bastante a melhorar a questão educacional no Brasil, especialmente se o dinheiro economizado nas universidades fosse destinado a aprimorar o Ensino Básico. “Quer dizer que você quer que o pobre realmente não possa fazer uma faculdade?” – você pode me perguntar. Pelo contrário. Pegue qualquer pesquisa e você verá que a maioria dos alunos dos cursos mais concorridos nas universidades públicas é de classe média ou alta. Pobre não consegue uma boa preparação nas escolas públicas para enfrentar a alta concorrência do vestibular. E não adianta criar cotas, porque o que mais tem hoje é garoto com grana matriculado em escola pública, mas fazendo um excelente cursinho particular no outro turno, só para poder entrar nas cotas destinadas a alunos da rede pública.

O país com maior produção de conhecimentos do planeta, os EUA, investe pesado no Ensino Básico. Lá, é raro alguém, por mais dinheiro que tenha, passar por escolas privadas antes de chegar à universidade. A preocupação é dar ao aluno uma boa base. Já o ensino superior, por lá, é pago até mesmo nas universidades públicas. Mas, não é todo mundo que paga: há muita bolsa, mas muita mesmo, para os alunos efetivamente de baixa renda e que tenham boas notas. Estou para dizer, ainda que sem números a me apoiar, que a proporção de pobres em bons cursos por lá é maior do que nos bons cursos por aqui, devido ao sistema de bolsas. O caminho da nação mais rica do mundo é um bom exemplo. Vamos cobrar pelo ensino superior de quem pode pagar, criando um sistema de bolsas que efetivamente chegue aos mais pobres, não a quem estudou em escola pública. Com isso, creio que teremos uma universidade mais séria, com menos evasão, além de uma boa economia aos cofres públicos.
(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com
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