08/01/2018 às 05h10min - Atualizada em 08/01/2018 às 05h10min

O espaço de cada um no relacionamento

ALEXANDRE HENRY ALVES | COLUNISTA

Depois de cinco anos e meio de namoro, eu me casei no começo de 2004. Um ano depois, no nosso aniversário de casamento, a minha esposa estava viajando para Buenos Aires com uma amiga. No ano seguinte, na mesma data, estava em Belo Horizonte, fazendo uma pós-graduação. No terceiro, também. No quarto ano, comemoramos juntos nossa data. Triste? Nada! O fato de não estarmos juntos em um dia específico não teve impacto algum na relação, até porque as comemorações ocorreram quando nos encontramos.

Sempre acreditei que cada um precisa ter seu espaço no relacionamento. Não é bagunçar a coisa, advirto desde já. Essa história de relacionamento aberto, em que cada um é livre para ter outras experiências amorosas, nunca me soou bem. Somos uma sociedade com uma forte cultura monogâmica, ainda que a fidelidade de fato seja algo relativamente raro. De toda forma, desejamos que a outra pessoa seja fiel. Não tenho cabeça para aceitar um relacionamento a três.

Mas, então do que eu estou falando? Refiro-me a cada um ter um tempo para si mesmo, sempre mantendo a lealdade e a fidelidade que o outro espera. Se tem algo que faz muito bem a um casal é a tal da saudade – desde que, claro, não seja exagerada e motivada por longos e frequentes períodos de ausência. Mas, aquela viagem rápida de um final de semana sem o outro faz bem, mas faz mesmo. Uma, duas vezes por ano. Qual é o problema de sua esposa fazer uma curta viagem com uma amiga? Qual é o problema de seu marido ir com os amigos pescar em um final de semana prolongado? Se isso não for algo que aconteça toda semana e se realmente houver confiança e lealdade, essas pequenas viagens só farão bem para a relação.

O mesmo vale para as atividades do cotidiano. É muito bom fazer muita coisa juntos: bater perna no shopping, almoçar juntos, curtir um jantar mais especial, descontrair a cabeça em algum bar. Sem isso, o relacionamento desaba. Mas, ter muitas atividades juntos não significa fazer tudo, sempre e sem exceção, grudado um no outro. Um café só com as amigas dela, aquele bate-papo dele com os colegas de trabalho depois do expediente, tudo isso ajuda a recuperar um pouco da individualidade. Aliás, apenas quando a gente percebe a própria individualidade é que sente falta da outra pessoa, do complemento essencial que ela traz.

Eu acredito nisso tudo e tento praticar. Hoje, com uma filha pequena, é mais difícil. Mas, estimulo a minha esposa a viajar de vez em quando com as amigas e me sinto bem pedalando com os amigos ou fazendo alguma atividade sem ela de vez em quando. Não é egoísmo, não é falta de amor, pelo contrário: respeitar o espaço do outro, dar um tempo para que o seu amor faça algumas coisas sem a sua presença, tudo isso é um sinal de que você valoriza quem está ao seu lado e, principalmente, é um grande sinal de confiança, item muito importante em uma relação.

No mais, vamos ser sinceros: adianta prender? Não adianta. Quando a pessoa quer fazer alguma coisa de errado, e aqui eu me refiro a trair o outro, isso acontece diante dos seus olhos. Você está em casa, vendo TV na sala, e a pessoa vai até a cozinha se agarrar com seu amigo que foi te visitar. Você o deixa no trabalho, fica de olho até que ele passe pela porta de entrada da empresa, mas ele cai de beijos com a colega de setor durante o intervalo para o cafezinho. Você sai com ela para um jantar com os amigos no restaurante e, enquanto está distraído batendo papo, ela vai ao banheiro e, disfarçadamente, aproveita para dar uns beijos em outra pessoa que também se levantou discretamente da mesa.

Enfim, uma das maneiras menos efetivas de você controlar a fidelidade de alguém é prender essa pessoa, é obrigá-la a fazer tudo junto com você, é não dar a ela espaço algum. Por outro lado, um pouco de liberdade e de estímulo à individualidade, mas conjugado com um cotidiano de companheirismo e lealdade, pode ter um bom retorno. Por que a pessoa iria querer uma liberdade que ela já tem? Por que ela arriscaria perder um excelente relacionamento, no qual ela tem a companhia da pessoa que ela ama e, ao mesmo tempo, um pouco de liberdade, só para viver um caso qualquer? Agora, se você prender a pessoa, tudo o que vai conseguir é fazer com que ela não se sinta feliz e completa, buscando encontrar formas de sair daquela prisão.

É assim que eu penso. Posso até estar errado, mas tenho vivido bem dessa maneira até agora. Se, no futuro, não der certo, provavelmente será porque a pessoa ao meu lado não era a certa, não porque a minha maneira de ser e pensar estava errada.

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