27/11/2017 às 05h42min - Atualizada em 27/11/2017 às 05h42min

A certidão de nascimento

ANA MARIA COELHO CARVALHO* | LEITORA DO DIÁRIO

Li em algum local que quando a gente pensa que já sabe todas as respostas, a vida muda todas as perguntas. Acrescento que quando a gente pensa que  já passou por todas as surpresas que a vida poderia nos reservar, pode surgir outra. Passei por isso dia destes.

Tudo começou porque o Consulado Geral de Portugal modificou, em julho, o Regimento de Nacionalidade, tornando mais fácil a obtenção da nacionalidade portuguesa para netos e bisnetos de portugueses. Como obter o passaporte europeu é um sonho para o meu irmão Lúcio e um dos meus filhos, eles começaram a desenterrar todos os documentos necessários. A certidão de nascimento do meu avô Antônio, que nasceu na região de Trás dos Montes, em Portugal, eles já haviam encontrado depois de um verdadeiro trabalho de detetive que durou dois anos. Faltava a certidão de nascimento do meu pai, que nasceu em Canta Galo, no Rio, e a minha, que nasci em Campos Altos, Minas. Encarregaram um sobrinho (apelidado carinhosamente de Canini e traduzido pelo Lúcio pra Cão Nini) de procurar a certidão na minha cidade natal. Passado uns dias, recebi um telefonema do meu irmão Luiz Flávio (o Fá) e depois do Lúcio. Alarmados, contaram que eu era filha só da Minelvira, mãe solteira, não era filha do Dr. Luiz, primeiro médico de Campos Altos! Levei um susto, mas eu tinha certeza que tinha pai sim e que sempre usei minha identidade e certidão de casamento com o nome dele.

O Lúcio contestou, afirmando que no livrão do cartório tinha só o nome Ana Maria, sem sobrenome. Enviou a foto da certidão de inteiro teor, manuscrita, sem o sobrenome Souza Coelho mesmo.  Afirmou que todos os meus descendentes tinham se lascado, porque eu não era neta de português coisa nenhuma. E como sempre fui muito avoada e distraída, não devia ter percebido isso. E quando me casei, certamente passei as informações apenas verbalmente. Mandou mensagens imensas, contando que o Cão Nini estava se esforçando muito, mas não encontrou nada; que o pai dele, o Afrânio, também teve problemas com o sobrenome, pois era Lemos Coelho e queria que fosse Souza Coelho, para ser como os príncipes de Portugal. Assim, quando adulto, mudou o sobrenome.  Só que na busca, descobriram que meu avô se chamava apenas Antônio de Souza e que o Coelho era do padrinho dele, um costume em Portugal. Ou seja, nunca existiu príncipe nenhum. Contou que também ele, Lúcio, queria trocar o sobrenome Teixeira Coelho, colocado em homenagem à nossa mãe, mas ela chorava tanto que ele desistiu. Acrescentou que eu e o Fá escrevemos um livro a quatro mãos contando que ele tinha sido encontrado no cocho do quintal onde os cavalos comiam sal. E que agora as pedras voltaram, pois Deus castiga e eu não tinha nem sobrenome (nessa parte, ele colocou "risos, risos" e eu também ri, ri muito).

Depois de todo este terrorismo, fui procurar uma certidão de nascimento antiga que eu sabia que possuía. Encontrei-a junto com vários documentos amarelados pelo tempo. Estava correta, com sobrenome e número de registro, folha e livro do cartório. Encontrei até uma cartinha que escrevi pra minha mãe em 11 de maio de 1957, convidando-a para a festa do dia das mães (como disse o Lúcio, retirei do túmulo dos faraós...). Descobri também um documento original  assinado pelo governador Benedito Valadares nomeando meu pai para primeiro prefeito de Campos Altos, uma relíquia.

Continuando a saga, resolvi ir a Campos Altos ver o que tinha acontecido no cartório e visitar o túmulo do meu pai. A averbação na minha certidão, acrescentando meu sobrenome, estava lá, feita 12 anos depois do meu nascimento, pelo meu próprio pai. Rezei para ele no cemitério e o agradeci. Fui à prefeitura doar o documento do Benedito Valadares e lá estava a foto dele, na galeria dos ex-prefeitos, de longe o mais bonito de todos.

Agora, é providenciar o passaporte português e, quem sabe, passar uns tempos em Portugal para voltar às raízes. E talvez encontrar algum Souza Coelho por lá, que com certeza não será nenhum príncipe.

(*) Bióloga e professora aposentada

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