25/10/2019 às 07h39min - Atualizada em 25/10/2019 às 14h19min

Operação do Gaeco mira esquema de desvio milionário no transporte escolar de Uberlândia

Alexandre Nogueira, Wilson Pinheiro e Juliano Modesto são investigados; delegados da Polícia Civil também são alvos

CAROLINE ALEIXO
Mandados de prisão e de busca são cumpridos na casa do vereador Wilson Pinheiro | Foto: Diário de Uberlândia
Agentes públicos de Uberlândia voltaram a ser alvos do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) em ação deflagrada na manhã desta sexta-feira (25). As investigações têm como foco principal um esquema fraudulento que teria desviado cerca de R$ 7 milhões dos cofres municipais com a prestação de serviço de transporte escolar. Também são apurados crimes de corrupção praticados por delegados da Polícia Civil na cidade.

A operação é feita contra 76 investigados com mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão em desdobramento das operações Torre de Babel e Mercúrio, além da operação denominada O Poderoso Chefão. O objetivo era dar cumprimento a mais de 100 mandados judiciais.

Entre os investigados estão os vereadores Alexandre Nogueira (PSD), Wilson Pinheiro (PP) e Juliano Modesto (suspenso do partido Solidariedade), que já estava preso em virtude do mandado de prisão cumprido na última semana pela primeira fase da Operação Torre de Babel. Pinheiro, líder do prefeito na Câmara, foi preso no início da manhã no bairro Santa Mônica. O vereador Alexandre Nogueira não foi localizado na residência durante o cumprimento, mas se apresentou nesta tarde na sede do Ministério Público Estadual (MPE).

 
O mandado de prisão contra Modesto foi cumprido no presídio Professor Jacy de Assis, onde ele se encontra preso. O ex-controlador da Câmara Municipal de Uberlândia, Adeilson Barbosa, e o delegado de Homicídios Eduardo Leal também estão entre os presos. No caso do policial, as investigações da segunda fase da Operação Mercúrio apontam que ele teria recebido propina de um investigado do Gaeco, cujo valor foi negociado durante confecção de auto de prisão em flagrante em 2014. Foi cumprido ainda mandado de prisão contra o ex-delegado de Homicídios Vitor Dantas, que já foi preso na Operação Fênix, por também receber vantagem indevida de presos. 

A Polícia Civil, por meio do delegado-chefe do 9° Departamento da Polícia Civil de Uberlândia, se posicionou acerca dos fatos e disse que os
 policiais serão conduzidos à Casa de Custódia em Belo Horizonte. 

"A Polícia Civil de Minas Gerais está fazendo um trabalho em parceria com o Gaeco e a PM. Os mandados de prisão expedidos contra policiais civis foram integralmente cumpridos. A Corregedoria Geral de PC foi listada e vai tomar as medidas administrativas cabíveis", esclareceu o chefe de departamento, Marcos Tadeu de Brito. 

O comandante da 9ª Região da Polícia Militar, coronel Cláudio Vitor, também reforçou sobre o empenho da corporação no trabalho em conjunto. "Somando-se as três operações, foram presas 32 pessoas sendo que cinco já estavam presas. Utilizamos o efetivo de 240 policiais militares e 50 viaturas, tanto em Ubrlândia, quanto em Patos. Na operação anterior havíamos prendido quatro PMs", disse. 


O advogado Rodrigo Ribeiro, representante dos vereadores, também foi procurado e estava se inteirando dos fatos para se posicionar. A defesa entrou com pedido de revogação da prisão de Wilson Pinheiro, que foi concedida pela Justiça ainda nesta sexta-feira convertendo o regime fechado para domiciliar.

O Diário não conseguiu contato com a defesa dos demais investigados.

Coopass X ATP
O Ministério Público apura na Operação O Poderoso Chefão os crimes de organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro envolvendo dirigentes e empresas com ligação à Cooperativa dos Transportadores de Passageiros e Cargas (Coopass) e à ATP, que prestaram serviço de transporte escolar à Prefeitura de Uberlândia. 

O nome faz referência ao vereador Alexandre Nogueira que estaria no comando das associações. Segundo o Gaeco, há informações de que "ATP" é a suposta sigla para "Alexandre Todo Poderoso". As primeiras informações divulgadas pelo Gaeco dão conta de que o grupo criminoso mantinha ainda esquema de lavagem de dinheiro por meio d
e laranjas e diversas empresas constituídas em nome de dirigentes da Coopass e da ATP.

Em 2015, a Câmara de Uberlândia criou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as irregularidades praticadas no serviço prestado, naquela ocasião, pela AMTGO. Nogueira era presidente do Legislativo e a CPI foi presidida pelo vereador Wilson Pinheiro.

De acordo com o Gaeco, a CPI da Vans teria sido utilizada pelos vereadores investigados para pressionar o então prefeito Gilmar Machado (PT) a contratar a ATP, que foi fundada pelo mesmo grupo responsável pela Coopass e ligada aos vereadores Alexandre Nogueira e Juliano Modesto.

Coletiva sobre as operações foi realizada pelos comandos do Gaeco, PM e PC de Uberlândia na sede do MP | Foto: Caroline Aleixo

A Prefeitura rompeu o contrato com a antiga associação e a ATP passou a prestar os serviços, cometendo as mesmas fraudes denunciadas contra AMTGO na Operação Kms de Vantagem.

O esquema denunciado ao MPE e à Polícia Civil indica que foram falsificados documentos, adulterando a quilometragem percorrida pelos veículos, para que fosse feito o repasse dos valores superfaturados à ATP. 


Uma coletiva de imprensa foi realizada nesta sexta-feira sobre a participação de cada um dos investigados nos eventuais crimes. "O foco de investigação é uma organização criminosa, chefiada por um vereador da cidade, que vem dominando o serviço de transporte público de Uberlândia desde 2007 a 2018, por 11 anos", comentou o coordenador do Gaeco, Daniel Martinez. 

O promotor de Justiça esclareceu que Wilson Pinheiro não tem ligação com a organização criminosa constituída pelas associações do transporte. O mandado de prisão contra ele ocorre em virtude de contratação ilegal de escritório de advocacia para auxiliar nos trabalhos da CPI das Vans, além da articulação política para favorecer a troca da prestadora do serviço ao Município. 

FLAGRANTE
Após a realização da primeira fase da Operação Torre de Babel, que culminou na prisão do vereador Juliano Modesto e no cumprimento de mandado de busca contra Alexandre, o Gaeco recebeu denúncia da retirada de documentos da sede da Coopass.


A situação foi flagrada pelos investigadores no momento em que a documentação era deixada em uma residência na cidade. Veja trecho do vídeo do flagrante ao qual o Diário teve acesso:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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O MP defendeu que o intuito do pedido das prisões preventivas, decretadas pela 4ª Vara Criminal da comarca de Uberlândia, é justamente evitar situações como essa que têm o intuito de dificultar as investigações envolvendo a cooperativa. 

OPERAÇÃO MERCÚRIO
Com o foco em apuração de crimes de corrupção ativa e passiva, envolvendo policiais civis de Uberlândia e integrantes de organização criminosa no ramo de roubo de caminhões e cargas, a segunda fase da Operação Mercúrio cumpriu três mandados de prisão preventiva contra os dois delegados de polícia e o investigador Weber Rodrigues. Foram cumpridos ainda três mandados de busca e apreensão durante a ação.


"Na data de hoje trabalhamos dois eventos em que há a suspeita de corrupção policial. Um evento envolve um delegado de polícia e outro um delegado de polícia e um investigador policial. Tivemos o apoio incondicional da chefia do 9° Departamento e da Corregedoria que se deslocou de BH até aqui. 100% dos investigados policiais civis foram presos na data de sendo oito no total, com esse três envolvidos na Operação Mercúrio", disse Martinez. 
 

OPERAÇÃO TORRE DE BABEL
Desdobramento da Operação Dominó, a segunda fase da Operação Torre de Babel foi deflagrada pelo Gaeco para combater uma organização chefiada pelo investigado Anderson Modesto Cunha. A ação cumpriu 69 mandados de prisão preventiva e um mandado de prisão temporário em face de 57 investigados, incluindo cinco policiais civis e e cinco policiais militares, além de 54 mandados de busca e apreensão. A operação também determinou o bloqueio de bens e valores no limite de R$ 5 milhões, em face de três investigados em razão da prática de crimes de lavagem de dinheiro.

"Essa fase está bem centrada na Elite Trucks, que é a empresa que era receptadora de carretas e cargas roubadas. Desses investigados, cinco são policiais civis e cinco militares. Dos investigados, onze já se encontravam presos e 46 estavam em liberdade", acrescentou o promotor. 

* A reportagem foi atualizada às 20h44 desta sexta-feira (25).





 
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