25/02/2018 às 05h02min - Atualizada em 25/02/2018 às 05h02min

Plástico pode matar 'novos clássicos'

Especialistas também vêem tecnologia atual como empecilhos para o surgimento de futuros colecionáveis

EDUARDO SODRÉ E MARCO ANTÔNIO ROCHA | FOLHAPRESS
O colecionador carioca Eduardo Gomes aposta no Peugeot 206 Rallye 2004 como futuro clássico automotivo | Foto: Ricardo Borges/Folhapress

O comprador de um carro nacional nos anos 1960 ou 1970 não poderia imaginar que aquele modelo que levava para a garagem se tornaria um automóvel valorizado 50 anos depois.

Hoje é comum encontrar Fuscas e Chevettes em bom estado anunciados por mais de R$ 30 mil, o mesmo pedido por um carro popular ano 2016 e pouco rodado. Esportivos das décadas de 1980 e 1990 chegam a R$ 70 mil.

A reportagem perguntou a colecionadores se esse fenômeno pode se repetir com os carros atuais. Na opinião deles, a tecnologia e o excesso de peças plásticas tornam difícil o surgimento de futuros clássicos sobre rodas produzidos no Brasil, mas alguns deverão vencer o tempo.

"O medo em relação aos carros antigos era que a carroceria fosse destruída pela ferrugem, o que está superado. A chapa atual não apodrece, mas a tecnologia embarcada é um dificultador e não sei como será a reposição de peças plásticas daqui a 30 ou 40 anos", diz Gustavo Tostes, presidente do Veteran Car Club do Brasil-RJ.

O clube lançou nos anos 1990 o prêmio Futuro Clássico. Volkswagen Gol GTi bolinha, Ford Escort XR3 e Chevrolet Monza SR já receberam troféus no evento.

"Muitos desses acabaram se tornando colecionáveis, mas ainda eram uma incógnita quando foram premiados", afirma Tostes, dono de um Fusca 1972 e de um Fiat Coupé 1996, com apenas 13 mil quilômetros rodados.

Marcelo Berek comercializa automóveis antigos. Ele vê alguns modelos com potencial para um dia serem considerados colecionáveis.

"Conversíveis, esportivos e cupês, nesta ordem, são fortíssimos candidatos, mas os quatro portas estão no último lugar da fila. Algumas séries especiais podem despertar interesse, mas o resto vai virar carro velho", diz Berek, que também é colecionador.

QUANTO VALE

Os especialistas não são capazes de determinar por que os preços dos antigos oscilam tanto. Para Berek, o mercado ainda está se adequando a essa realidade.

"Tenho oito Fuscas, de tudo quanto é tipo e modelo. Um deles está restaurado de ponta a ponta, mas mesmo assim não vale mais do que um 1968 todo original, com a pintura feia. Existe uma série de nuances para estabelecer preços", diz o colecionador.

Para o comerciante Eduardo Gomes, os valores atingiram um nível irreal. "Comprei um Escort por R$ 13 mil e, cinco anos depois, me ofereceram R$ 20 mil. Não há explicação razoável para isso."

Gomes lembra que o lado emocional pode influenciar a alta de preços, com clientes dispostos a pagar caro por um carro idêntico ao de um avô ou que foram objetos do desejo. "Tem gente que não mede esforços para comprar aquele sonho de consumo que, quando foi lançado, era inatingível. Mas ter bom senso é fundamental".

O comerciante também faz sua aposta para o futuro. Além do Escort e de um Fiat 147 1978, ele guarda na garagem um Peugeot 206 Rallye 2004, com a esperança de que um dia vire artigo de coleção. Em comum, todos são pintados de vermelho.

Ele acredita que carros esportivos atuais, como o Renault Sandero RS, que foi lançado em 2015, poderão virar clássicos no futuro, e ainda procura outros modelos para sua coleção.

"Estou há anos procurando um Fiat Tempra duas portas em ótimo estado, mas não acho. Quem sabe um dia?"
 
O que dizem os especialistas sobre futuros clássicos

ESPORTIVIDADE SEM LUXO: carros esportivos com mecânica muito complexa têm menos chances de permanecerem íntegros com o passar dos anos, devido às dificuldades de manutenção. Contudo, modelos como o Renault Sandero RS, de mecânica simples, têm potencial para se valorizar
 
SÉRIE LIMITADA: modelos comemorativos têm mais chances de virarem clássicos. Quanto mais raro, maior o valor no futuro. Um dos mais colecionáveis é o Volkswagen Gol Vintage, que em 2010 celebrou os 30 anos do hatch e teve apenas 30 unidades produzida
 
ÚLTIMO MODELO: Algumas marcas lançam séries que celebram o fim da produção de um carro. Em geral, trazem numeração e acessórios exclusivos, que ajudam na valorização futura. A Chevrolet fez isso ao lançar o Vectra Collection, com pintura verde e forração de couro cinza
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