03/09/2017 às 05h35min - Atualizada em 03/09/2017 às 05h35min

Um sonho na contramão

ALEXANDRE HENRY ALVES* | COLUNISTA

Uberlândia, que já está com 676 mil habitantes, vive a mesma tendência de boa parte das cidades brasileiras de porte médio e grande: o crescimento dos condomínios fechados. É impressionante como eles tomaram conta das regiões urbanas nos últimos vinte anos, com seus muros altos, suas portarias fortificadas e um pouco de paz em seu interior. A tendência, diga-se de passagem, não é apenas de condomínios de casas luxuosas, mas também de casas simples. O brasileiro, infelizmente, está fugindo da violência e a moradia em locais fechados parece ser um dos únicos meios para ter um pouco de sossego.

Eu não moro em um condomínio fechado, mas confesso que desejo morar. A razão de eu querer sair de um apartamento? Poder ter um pouco mais de espaço e, principalmente, poder me sentar na porta de casa até tarde, conversando com amigos e vizinhos, sem ter medo de ser assaltado. Queria que a minha filha sentisse um pouquinho da infância que o pai teve, solto pelas ruas de Uberlândia de forma despreocupada, ainda que essa liberdade dela em um condomínio fosse apenas relativa. De toda sorte, poder andar pelas ruas, ainda que não sejam muitas, já é melhor do que ficar trancado em um apartamento.

Porém, mesmo com essa questão da violência, tudo o que tenho lido e visto sobre desenvolvimento urbano sustentável indica que os condomínios fechados representam uma péssima forma de ocupação das cidades, mesmo aqueles com casas populares. Isso porque eles levam necessariamente à necessidade de construção de novas vias de tráfego e praticamente obrigam seus moradores a usar carro para tudo. Boa parte das cidades americanas representa bem essa realidade. Embora lá os condomínios não tenham cercas enormes, eles são quase sempre ilhas que não possuem recursos próximos: supermercados, farmácias, escolas etc. E, geralmente, também são distantes dos locais de trabalho. Quando eu me refiro a “próximo”, falo de uma distância que permita à pessoa se deslocar a pé ou de bicicleta. De preferência, a pé mesmo.

Qual é o problema dos deslocamentos? Primeiro, a poluição. Uma das maiores fontes de gases poluentes são os veículos movidos a combustíveis fosseis. Sim, eu sei que já estamos dando os primeiros passos para superar esse problema e que logo virão os carros elétricos. Mas, pense bem: quanta poluição é necessária para produzir os metais, plásticos e tecidos que são utilizados na construção de um veículo? Isso não mudará com os carros elétricos. Tem outro problema que é o do custo. Na medida em que tudo o que você faz demanda um carro, cada família é obrigada (se puder, é claro) a ter mais de um veículo. Quanto isso retira do orçamento familiar todo ano? Um veículo popular consome pelo menos 10 mil reais do bolso de seu dono por ano, quando você inclui combustível, manutenção, seguro, impostos e depreciação. E se esses 10 mil reais virassem 2 mil reais em transporte público, deixando o restante para gastos como lazer e educação?

Um terceiro problema é o do trânsito. Em cidades como Uberlândia, gastava-se muito pouco para se chegar a qualquer lugar, mas agora pergunte a um morador de condomínio da Zona Sul quanto tempo ele perde no trânsito por dia, ainda mais se for almoçar em casa. Os condomínios horizontais, pelo espaço que exigem, demandam glebas de terra só disponíveis em locais distantes do centro. Mais do que isso, como locais exclusivos de moradia, não dispõem daqueles recursos básicos que eu falei, como farmácia, supermercado e escola. Tudo o que você precisa fazer pede um carro e, com isso, o trânsito só vai aumentando.

Em resumo, os condomínios residenciais de casas podem até ser um sonho de quase todo mundo, inclusive fora do Brasil, mas estão na contramão das cidades sustentáveis. O ideal é termos espaços verticalizados, entremeados por muitos parques e praças, com a natureza integrada e com centros de comércio e serviço bem próximos, de maneira a que a maioria das pessoas se desloque a pé mesmo. O quintal de cada um deve ser a praça ao lado do prédio onde vive. A China já está criando cidades assim, preocupada com a poluição que tem custado fatias cada vez maiores do seu PIB. Tomara que o Brasil também siga o mesmo caminho. O único problema aqui é que, antes, teremos que enfrentar a violência, algo que não parece ter solução nas próximas décadas. Mas, mesmo com a violência, áreas urbanas verticalizadas e menores parecem ser mais viáveis, até porque, com menos ruas, o prórpio serviço da polícia fica mais fácil.

(*) Juiz Federal e Escritor - www.dedodeprosa.com

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