28/05/2022 às 08h00min - Atualizada em 28/05/2022 às 08h00min

A hepatite misteriosa chegou por aqui

JOÃO LUCAS O'CONNELL
A hepatite misteriosa, como o próprio nome já diz, ainda intriga a comunidade científica internacional. Chamamos de hepatite o quadro de inflamação do fígado, caracterizado por dano ao órgão e consequente elevação das enzimas hepáticas. Esta inflamação pode ter inúmeras causas e o quadro pode ser agudo ou crônico. 

No caso de hepatites agudas, os sinais e sintomas da doença costumam evoluir e se manifestar rapidamente, em poucos dias. Nas crônicas, os sinais e sintomas são menos intensos e o paciente demora meses para entender que algo não está normal e procurar auxílio médico. Muitas vezes, o diagnóstico da crônica é dado através de exames laboratoriais que vêm alterados numa avaliação de rotina. 

As causas mais comuns de hepatite (tanto da aguda quanto da crônica) são as doenças infecciosas que agridem predominantemente o fígado: vírus da hepatite A, B, C, D e E. Alguns deles (como o vírus da hepatite A) são adquiridos pela transmissão fecal-oral (ingestão do vírus que entra pelo sistema gastrintestinal).  Outros deles (como os da hepatite B e C) são transmitidos pelo contato com o sangue de pessoas contaminadas (transmitidos por contato sexual, transfusão de sangue ou agulhas contaminadas). 

Outros vírus também podem levar a hepatites: adenovírus, citomegalovírus, parvovírus, herpes, febre amarela. O uso de medicamentos como alguns antibióticos, antidepressivos, analgésicos (especialmente o paracetamol), estatinas ou anticonvulsivantes também podem causar inflamação aguda ou crônica ao fígado. Outras causas comuns de hepatite aguda e crônica em adultos são relacionadas ao uso de substâncias tóxicas, especialmente secundárias ao uso de bebidas alcoólicas em excesso.  

Na maioria das vezes, as hepatites acontecem em pessoas adultas. Mais recentemente, centenas de casos de um quadro diferente de hepatite foram descritos no mundo. Primeiro porque, de maneira intrigante, esta nova forma de hepatite vem se manifestando em crianças, predominantemente menores de 5 anos de idade. Além disso, estes casos não estão relacionados à agressão dos tipos comuns dos vírus que comumente causam hepatite. 

A principal hipótese levantada até aqui é que crianças com fragmentos do vírus da COVID-19, no sistema gastrointestinal (ou seja, previamente contaminados pelo coronavírus), estão tendo uma resposta imunológica exagerada após exposição a um outro vírus: o adenovírus 41. A relação com as vacinas têm sido negada pois a grande maioria das crianças acometidas não havia sido vacinada. No Brasil, já temos mais de 60 casos suspeitos do problema. No mundo todo este número passa de 600. 

Como a hepatite misteriosa acomete, geralmente, crianças com menos de cinco anos de idade (que não conseguem descrever tão bem os seus sintomas), os pais precisam ter atenção aos principais sinais que fazem a suspeição da doença. 

Os principais sinais da doença são: febre, dor abdominal, icterícia (pele amarelada), convulsões, perda de consciência, urina escura, fezes claras, dores nas articulações e nos músculos, náuseas, vômitos, perda de apetite, coceira na pele sem razão aparente. 
Infelizmente, o quadro da hepatite misteriosa tem sido, em média, mais grave do que os outros tipos de hepatite. Muitas crianças têm evoluído muito mal. Assim, a recomendação formal é que, ao detectar qualquer um desses sintomas de hepatite, os pais procurem imediatamente por uma avaliação médica imediata. 

Como o surto de hepatite parece estar associado a contaminação simultânea entre o corona e o adenovírus em indivíduos predispostos, o ideal é que as pessoas, principalmente as crianças, mantenham os hábitos de higiene adotados durante a pandemia, como lavar sempre as mãos com água e sabão, usar álcool em gel, máscaras e evitar contatos com outras crianças com sintomas gripais.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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