12/11/2021 às 08h00min - Atualizada em 12/11/2021 às 08h00min

Fé cega

WILLIAM H STUTZ

Estive recentemente com tristeza em velório de mãe de um grande amigo em Uberaba. Fomos todos pegos de surpresa. A morte sempre traz sensação de impotência, de perda de domínio sobre tudo.

Como parte do ritual fúnebre, padre paramentado, coisa rara, disse palavras belas de conforto e paz.

Não sendo propriamente católico, não sabia acompanhar a preleção e entoar cânticos de resposta às orações ali apresentadas. Explico: sendo filho de judeu e católico, tive a felicidade de ter contato com ambas as religiões, ou seja, além de dupla nacionalidade, mãe mineira, pai do Brooklyn (NY), fui exposto a processo de aculturação religiosa, um privilégio que, apesar de saudável, perigoso, pois bagunça a cabeça de qualquer jovem.

Frequentei quando bem criança a igreja católica. Saía de lá sempre com medo das chamas do inferno. Depois passei a frequentar a Associação Israelita e nunca me senti tão bem. Não que tenha me tornado judeu praticante a ponto de respeitar o Shabat, alimentar apenas de comida kosher ou comemorar o Rosh Hashaná, nosso Ano Novo. Mas me dedico, permanentemente, a estudos do Tanakh e me atualizo permanentemente por meio da Morashá, além, é claro, de ter sido circuncidado.

Mas o que me deixou pensativo foi uma frase dita pelo padre, algo mais ou menos assim:
— Serás recebida às portas do Céu pelos anjos do Senhor.

Se o céu como pintado existe, não tenho a menor dúvida de que para lá ela foi. Mas o que ficou a martelar minha cabeça foi o porquê de se levar pessoa tão boa e deixar tanta gente ruim entre nós.

Imagino que a adolescência em relação ao Pai Eterno comece aos 50 anos. Tornamo-nos cheios de por quês, de dúvidas em relação a tudo que se diz divino. Em minha busca ouvi prelação de rabino cínico, sermão de padre homofóbico e comício de evangélicos irados. Na doutrina espírita e no zen budismo, uma tranquilidade excessivamente conformista e morna. Na umbanda, encontrei alegria e beleza, cores e música a cultuar divindades, em belo sincretismo religioso, como bem definiu Milton Nascimento, para a entrada mágica de maravilhosa madona e seu andor em preciso e brilhante esplendor azul. Passagem no lindo Maria, Maria encenado à exaustão pelo Grupo Corpo. Obra-prima da dança brasileira. Primeira peça do grupo que, felizmente, soube sempre criar trabalhos à altura da estreia nos palcos. Começar do ótimo nunca é fácil.

Que fique aqui bem claro que não estou emitindo nenhum juízo de valor sobre religião que seja. Tenho profundo respeito por todas que buscam o bem. Estou agindo como o adolescente descrito acima, em difícil fase dos por quês. Talvez buscando um rumo. O famoso do tal “de onde viemos, para onde vamos”. Para um paraíso místico de mel e deleite? Ou enfrentar Cérbero, o guardião das portas do inferno, após cruzar o rio Aqueronte, onde fica a entrada do reino de Hades?

Depois de muito matutar, a uma conclusão cheguei. Hoje posso finalmente me definir e os por quês tendem a amainar. Sou mesmo é um judeu devoto de Nossa Senhora, encantado com a Umbanda, na qual, com prazer, troco areia de terreiro, na virada do ano. Sem se esquecer de, no dia 2 de fevereiro, acender velas para Iemanjá. Ainda me remetendo a Maria, Maria e que Deus abençoe o jeito bem nosso de nos dirigir a Ele, para sempre uma saborosa e divina farofa de religiões. Sou tudo, sou nada. Saravá, Amém, Shalom.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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