24/07/2021 às 08h00min - Atualizada em 24/07/2021 às 08h00min

A variante delta e a ameaça de uma terceira onda da pandemia

JOÃO LUCAS O'CONNELL
A curva de disseminação do novo coronavírus no Brasil tem se comportado de maneira única no mundo. O longo platô de pico observado por aqui no ano passado não foi visto em nenhum outro país do globo! Foram mais de 4 meses de pico em platô levando a muitos novos casos da doença, muitas internações e muitos óbitos. Fomos atingidos duramente pela pandemia em 2020! Terminamos o ano como o segundo país do mundo com maior número de casos e de óbitos provocados pela doença, atrás apenas dos norte-americanos, mais populosos que nós.

No início de 2021, quando todos esperávamos uma diminuição progressiva dos números da pandemia neste ano, apareceu uma nova variante do vírus (a variante brasileira – P1 - hoje chamada de variante Gama) que nos pegou de jeito! Ano passado, poucos poderiam prever que a onda de disseminação da doença, que vitimou a tantos por aqui, pudesse retornar em 2021 numa segunda onda muito mais importante e avassaladora da doença...

Enquanto perdemos cerca de 195.000 vidas por aqui durante todo o ano de 2020, já tivemos mais de 350.000 perdas este ano (e só estamos em julho). Já são mais de 545.000 vidas perdidas para a COVID! Como se já não bastasse um quadro anterior tão triste, agora convivemos com um novo temor cada vez mais crescente: a de uma potencial piora dos números da pandemia no segundo semestre. Isto devido a ameaça da chegada de uma nova variante por aqui: a variante indiana, ou variante Delta... É isto mesmo! Teremos que conviver com o medo de uma terceira onda de disseminação da doença, com um provável aumento do número de casos por aqui nos próximos meses...

A variante delta tem causado inúmeros problemas aonde chega. Já foi assim na Índia, na Inglaterra, na Indonésia e outros. Hoje, ela já está presente em mais de 74 países do mundo. Detectada em outubro de 2020 na Índia, esta variante de preocupação do novo coronavírus reúne características que indicam que ela seja a mais transmissível até agora – pelo menos 40% a mais que a Alfa. Apesar de não haver um aparente aumento da gravidade média dos casos, como ela acaba infectando mais gente, é possível que vejamos um novo aumento do número de mortes pela doença nos próximos meses. Além disso, esta variante traz outras preocupações com a introdução de possíveis sequelas mais raras na COVID causada por outras cepas. Tem sido descrito um maior número de casos de perda de audição e de gangrena (necrose) de dedos na infecção causada por esta variante. Por fim, uma outra preocupação, que também aflige a muitos, é o real potencial de proteção das vacinas em relação à doença causada pela variante Delta... Em especial, a aplicação de apenas uma dose das vacinas não parece proteger de maneira adequada contra a doença causada pela Delta (entre 50% e 70% de proteção com apenas uma dose).

Mas, temos como escapar deste novo infortúnio? Essa terceira onda vai realmente nos surpreender? Na contramão das previsões mais pessimistas, estudos recentes têm demonstrado que a eficácia da proteção de duas doses das vacinas da Pfizer, da Astra e da Moderna é apenas um pouco inferior contra esta nova variante. Acredita-se que com a vacina da Pfizer, por exemplo, a taxa de proteção contra a infecção por uma variante não preocupante seja de 93% - 7 dias após a segunda dose da vacina. Contra a variante Delta, esta proteção cairia para 87%... É uma proteção menor, mas longe de se tornar uma preocupação. As vacinas da Astra e da Moderna também perdem pouca eficácia na eficiência de proteção (aparentemente elas também mantêm uma taxa de proteção maior que 80% contra infeção). Melhor que isso: para todas as três, a proteção contra formas graves da doença continua acima de 85%, mesmo para a variante Delta. Ainda não temos informações fidedignas sobre a proteção fornecida pela Coronavac contra a variante Delta. É preciso aguardar novos estudos que avaliem isto.

Assim, o que se sabe até aqui é que a variante Delta é sim, neste momento, uma ameaça para um novo aumento do número de casos no Brasil nos próximos meses. Estamos novamente vulneráveis! Mas, o quanto isto vai impactar em sobrecarga ao sistema de saúde (e, eventualmente, necessidade de novas medidas de restrição à circulação) vai depender muito da capacidade de cobertura vacinal da população brasileira com as duas doses das vacinas. A melhor solução é acelerarmos a vacinação. Quanto mais pessoas com esquema completo, menor será a chance de doença grave e de morte! Além disso, será fundamental manter a orientação oficial para todas as demais medidas já bastante divulgadas para evitar a disseminação de qualquer variante: teremos que conviver por mais algum tempo com o uso de máscaras, o distanciamento social e mantermos rigorosos protocolos de higiene manual e respiratória. Pelo menos até que 60% da população tenha recebido as duas doses de uma das vacinas.


Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia. 
 
 
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