26/06/2021 às 08h00min - Atualizada em 26/06/2021 às 08h00min

Aneurismas Cerebrais

O que são? Existe tratamento?

JOÃO LUCAS O'CONNELL
As artérias cerebrais são os vasos sanguíneos responsáveis por levar o sangue oxigenado bombeado pelo coração para o tecido cerebral. Uma patologia frequente que envolve as artérias cerebrais é o aneurisma. O aneurisma é uma dilatação importante e localizada de uma artéria. O tamanho do aneurisma é variável e depende do vaso envolvido. Pode variar de alguns milímetros até alguns centímetros. Em boa parte dos casos, os aneurismas podem ser identificados acidentalmente, em exames realizados para a investigação de cefaleias, tonturas, ou outros sintomas neurológicos que levem à realização de exames de imagem como a angiotomografia ou a angiorressonância. Ou seja, em boa parte dos casos (provavelmente a maioria dos aneurismas) não levam ao surgimento de sintomas e o paciente acaba falecendo em decorrência de outro problema de saúde não relacionado ao aneurisma. Entretanto, outra parte dos aneurismas acaba se rompendo e levando ao extravasamento de sangue de dentro das artérias cerebrais para o tecido cerebral, para o espaço entre o cérebro e a camada que o recobre e para o interior dos ventrículos cerebrais. Quando ocorre o sangramento, o paciente pode apresentar diversos sinais e sintomas, que vão desde alterações discretas da fala, da visão, audição, movimentação de membros até o coma e subsequente óbito.

Geralmente, os aneurismas cerebrais, quando sintomáticos, se manifestam na vida adulta e são raramente encontrados nas autópsias de crianças. Portanto, acredita-se que o aneurisma cerebral se forme ao longo da vida da pessoa que está geneticamente predisposta a sofrer esta dilatação da artéria cerebral. Entre os aneurismas cerebrais, há uma discreta predominância da incidência no sexo feminino e o pico etário de rotura se dá em torno dos 40 a 50 anos de idade.
Como já dissemos, a maior preocupação relacionada aos aneurismas cerebrais está relacionada à possibilidade de sua ruptura. Outro grande risco relacionado ao aneurisma está no fato deste poder trombosar provocando isquemia (falta de circulação adequada) para os tecidos irrigados pela artéria atingida. Nas artérias cerebrais, a ruptura de aneurismas é uma das principais causas do acidente vascular cerebral hemorrágico (um tipo de derrame cerebral, na linguagem popular). Os aneurismas, na maioria dos casos, não geram qualquer tipo de sintoma até a sua ruptura e sangramento. Menos frequentemente, o aneurisma pode crescer, comprimir estruturas adjacentes como nervos e outros vasos sanguíneos causando isquemia e paralisia.

Em geral, só há indicação para a realização de exames para a detecção de aneurismas intra-cerebrais se houver algum antecedente de AVC (acidente vascular cerebral) hemorrágico ou uma clínica muito sugestiva. Os exames que podem auxiliar a definir a presença e localização dos aneurismas são: a angiotomografia e a angiorressonância. O exame padrão ouro para a avaliação é a angiografia digital cerebral através do cateterismo seletivo dos 4 grandes vasos que irrigam o cérebro.

Os aneurismas intracranianos são lesões perigosas, de elevado risco que, em caso de ruptura, podem produzir a morte súbita em um primeiro ou mais sangramentos; ou uma devastação neurológica (sequelas diversas) em pessoas que, frequentemente, eram completamente saudáveis. A ruptura de um aneurisma cerebral cursa com elevada mortalidade, constituindo um significativo problema de saúde. Além disso, a incapacidade severa definitiva afeta uma boa parcela dos sobreviventes. A evolução favorável, com alta hospitalar sem qualquer sequela, acontece apenas em um terço dos pacientes vitimados pela ruptura do aneurisma.
Entre diversos fatores que podem estar ligados à sua ruptura estão: picos de pressão arterial, o hábito de fumar, o consumo de drogas e álcool, o estresse, os contraceptivos orais, o parto e os esforços físicos exagerados.

Em geral, após um primeiro sangramento, a investigação diagnóstica torna-se mandatória.  A partir do diagnóstico da existência dos aneurismas cerebrais, será definido um plano terapêutico baseado no tamanho e localização do aneurisma e da probabilidade de uma ruptura do mesmo. A abordagem cirúrgica deve ser sempre cogitada e discutida com o neurocirurgião. A abordagem percutânea (através de cateteres que sobem até as artérias cerebrais a partir de punções de vasos na virilha e através do isolamento do aneurisma pelo implante de dispositivos que promovem a trombose intravascular do mesmo) também é outra técnica terapêutica que pode ser tentada. O tratamento clínico envolve modificações no estilo de vida e o controle medicamentoso otimizado de todos fatores de risco que podem ser associados à ruptura do vaso (tabagismo, diabete, hipertensão arterial, colesterol elevado, sedentarismo, dieta inflamatória, estresse emocional).

Os tratamentos intervencionistas (cirurgia ou tratamento endovascular) são procedimentos delicados e que envolvem certo risco de dano cerebral associado à tentativa de resolução. Assim, é fundamental que os casos sejam discutidos por uma equipe multidisciplinar para que o melhor planejamento de tratamento seja realizado. Portanto, o tratamento deve ser individualizado e escolhido após discussão da relação do risco x benefício de cada opção terapêutica entre o médico que acompanha o paciente, o paciente e a família. A opção que será sugerida pelo médico assistente deve procurar ser consensual entre o médico assistente (que definirá se há condições para as intervenções), o médico intervencionista (neuro-intervencionista ou radiologista intervencionista) e o neurocirurgião. Esta atuação em conjunto de toda equipe médica é fundamental para a obtenção de baixas taxas de eventos neurológicos relacionados ao aneurisma cerebral.
 


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