27/03/2021 às 10h06min - Atualizada em 27/03/2021 às 10h06min

A polêmica do tratamento precoce da COVID

JOÃO LUCAS O'OCONNELL
Foto: PEXELS
A discussão sobre as possibilidades de tratamento medicamentoso numa fase precoce da infecção respiratória causada pelo novo coronavírus ganhou, novamente, grande espaço nas mídias sociais e na imprensa oficial nas últimas semanas... A discussão sobre o benefício ou não do uso de uma série de medicações propostas por alguns médicos logo no início dos sintomas da COVID pegou fogo novamente não só na mídia oficial, mas também nas redes sociais. O assunto foi amplamente discutido não só em ambientes virtuais médicos e científicos, como também foi lenha na fogueira do debate político polarizado no cenário nacional.

É muito complexo falar sobre o porquê este debate sobre o “tratamento precoce” ainda ocupa tanto espaço na mídia e nas discussões virtuais. Não só grupos de médicos continuam não se entendendo, como também os representantes das principais entidades médicas brasileiras também andaram se estranhado publicamente. Isto porque a Associação Médica Brasileira (AMB) se posicionou, esta semana, fortemente contra a prescrição de medicações como Hidroxicloroquina, Azitromicina, Ivermectina, Zinco, Vitamina D, Vitamina C, Quercitina, Bromexina, Famotidina e outras que têm sido prescritas isoladamente ou associadamente para o tratamento da fase inicial da COVID. Segundo a carta aberta publicada pela AMB, o tratamento proposto pode não só não ajudar na condução dos pacientes como também pode ser prejudicial aos pacientes que o recebem... Entretanto, poucos dias depois, o Presidente do Conselho Federal de Medicina, Dr. Mauro Ribeiro, foi a público não só questionar o poder de condenação ao tratamento imposto pela AMB, como também declarar que não há evidências que o tal tratamento precoce não funcione, liberando os médicos para que continuem prescrevendo as medicações, se entenderem que elas podem ser benéficas.

Segundo o manifesto publicado pela AMB, e supostamente apoiado por outras 81 Sociedades e Entidades Médicas organizadas, a prescrição de medicações sem benefício cientificamente comprovado pode ser ruim por diferentes motivos. Primeiro, porque o uso delas pode levar a uma série de efeitos colaterais perigosos, dentre os quais: hepatite, diarreias, insuficiência renal, seleção de flora bacteriana resistente, embolia pulmonar e arritmias cardíacas. Segundo, o uso destas medicações poderia dar uma falsa sensação de segurança a vários pacientes que, passando a acreditar num potencial milagroso das medicações, poderia relaxar a observação médica rigorosa durante o início da fase inflamatória da doença e retardar a busca por auxílio médico quando da sua piora. Algo como: “não vou procurar ajuda pois já tomei o tratamento precoce e vou ficar bem...”. Ainda: o uso de algumas medicações, que são até importantes e fundamentais na fase inflamatória da doença, poderiam atrapalhar a evolução do paciente se administradas numa fase inicial. Assim, existe uma forte suposição de que possa haver um importante malefício quando da prescrição do corticoide no início dos sintomas (pois poderia tirar a capacidade do organismo de lutar contra a replicação viral e a agressão inicial causada pelo vírus) e também dos antibióticos quando usados muito precocemente (pois poderiam selecionar uma flora bacteriana mais potente) e que poderia resultar em uma pneumonia bacteriana associada mais grave na segunda ou terceira semana de doença. 

Por outro lado, o presidente do CFM concedeu uma série de entrevistas a redes de televisão, jornais e revistas aonde deixou claro que não há comprovação científica nem de que a maioria das drogas propostas funcione e nem que não funcionem, o que tornaria inválida a condenação sumária de qualquer um dos vários tratamentos em questão. Assim, o CFM defende a tese de que o médico tem total autonomia para prescrever o tratamento medicamentoso que julgue mais capaz de trazer benefícios a seu paciente.

É realmente uma pena que ainda exista tanta polêmica em relação a este assunto, que já se tornou extremamente incômodo para muita gente... É ainda mais triste que tenhamos uma doença que causa tanta comoção e que ainda não conseguimos encontrar uma ou mais medicações que possam fazer uma diferença substancial, a ponto de serem consagradas para uso no tratamento. Na próxima semana, retornarei à esta discussão para tentar explicar porque toda esta confusão foi criada e porque é tão difícil provar que uma medicação seja útil quando utilizada numa fase precoce da doença.
 

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