13/03/2021 às 08h51min - Atualizada em 13/03/2021 às 08h51min

COVID e doenças do coração: qual a relação?

JOÃO LUCAS O'OCONNELL
Pixabay
Na última semana, a cidade de Uberlândia e o Brasil viveram os piores momentos da pandemia até aqui. Contabilizamos dezenas de óbitos em nossa cidade e o país contabilizou mais de 2000 óbitos por dia ao longo de vários dias desta semana. Já somamos mais de 11 milhões de casos confirmados no país até aqui.
 
Já contabilizamos mais de 270.000 óbitos! E os números não param de subir! Acredito que, nas próximas duas semanas, veremos uma diminuição do ritmo de crescimento de novos casos e também de óbitos em nossa região. Se isto acontecer, o Comitê de Enfrentamento da COVID pode pensar em diminuir o número de medidas restritivas à circulação na cidade, pelo menos com a liberação de algumas atividades comerciais em dias intercalados a partir do fim do mês. Entretanto, acredito que o resto do país viverá, ainda por mais algumas semanas, dias de muita tristeza, desespero e caos...
 
Na coluna de hoje, discutiremos a íntima relação das doenças cardíacas com a COVID. Desde o início da pandemia, cardiologistas do mundo inteiro começaram a chamar a atenção para a íntima relação que existe entre estas doenças. O vínculo se dá por vários fatores:
 
Primeiro: já está muito bem estabelecido que os pacientes que já são portadores de doenças cardiovasculares e que adquirem a infecção pelo novo coronavírus têm uma chance muito maior de evoluírem com gravidade do que os pacientes previamente hígidos. Assim, pacientes com antecedentes de infarto, hipertensão, angioplastias, cirurgias cardíacas prévias deveriam se cuidar ainda mais para evitar o contato com o vírus e também deveriam ser monitorizados rigorosamente caso apresentem sintomas de COVID. Isto é ainda mais importante se, além de cardiopatas, forem idosos ou também portadores de obesidade, hipertensão, diabetes, doenças pulmonares, renais, hepáticas, neoplásicas ou que levem a deficiências do sistema imunológico.
 
Segundo: sabemos que uma minoria de pacientes acaba desenvolvendo uma resposta inflamatória mais exacerbada contra o vírus. Estes indivíduos, muitas vezes, desenvolvem um quadro de pneumonia viral que pode levar a uma resposta inflamatória sistêmica importante e à ocorrência de uma Síndrome Respiratória Aguda Grave, secundária à infecção viral. Já está bem estabelecido que pacientes que apresentam documentação de dano miocárdico secundário a esta agressão inflamatória, detectados através de alterações clínicas ou em exames laboratoriais (troponina, eletrocardiograma, ecocardiograma), acabam evoluindo com maior gravidade e também maior chance de óbito intra-hospitalar.
 
Este pior prognóstico dos pacientes internados que apresentam lesão cardíaca aguda vale tanto para pacientes previamente cardiopatas quanto para pacientes que nunca haviam apresentado problemas cardíacos anteriormente.
 
Terceiro: temos detectado a presença de sequelas cardíacas em parte dos pacientes que se recuperaram bem da COVID. Mesmo pacientes que apresentaram quadros leves de COVID podem apresentar alterações cardíacas que têm permanecido por, pelo menos, alguns meses. Pesquisas científicas bem conduzidas já detectaram que pelo menos um terço dos pacientes que apresentaram COVID, apresentaram também evidências de miocardite ou de pericardite (inflamações no músculo cardíaco ou na capa fibrosa que envolve o coração).
 
Além disso, a inflamação secundária à infecção viral também pode danificar os vasos sanguíneos e aumentar a coagulabilidade sanguínea, aumentando a chance da ocorrência de vários eventos cardiovasculares graves, como o infarto agudo do miocárdio, o acidente vascular cerebral e a embolia pulmonar. Todas estas alterações e agressões ao tecido miocárdico e aos vasos sanguíneos aumentam a chance de outras sequelas crônicas como a Insuficiência Cardíaca pós COVID, a Hipertensão Arterial Pulmonar e as arritmias cardíacas benignas e malignas. O risco da ocorrência de morte súbita algumas semanas após a COVID também é aumentado.
 
A pandemia da COVID já vitimou milhões de pessoas no mundo todo! Esta tempestade global também nos trouxe enormes transtornos sociais, físicos, psíquicos e afetivos. Assim, é muito triste saber que mesmo que o indivíduo evolui bem e se recupere da doença, ainda pode ficar com sequelas... Mas, é importante destacar que a grande maioria dos pacientes que entram em contato com o vírus acaba evoluindo bem, tanto na fase aguda quanto tardiamente.
 
A ocorrência de doença cardíaca grave secundária à COVID, apesar de existente, ainda é rara! Apesar disso, como não sabemos ao certo quais são os pacientes que irão evoluir com maior gravidade, todo cuidado continua sendo pouco!
 
A melhor maneira, até aqui, de se evitar a ocorrência de complicações graves da doença é a vacinação! Enquanto a vacina não é disponibilizada para todos, a melhor maneira continua sendo: evitar o contato com o vírus!
 
Para isso, nunca é demais repetir que o uso de máscaras de maneira adequada, evitar contato com desconhecidos em ambientes fechados ou aglomerados e a higiene manual constante continuam sendo a melhor maneira de evitarmos as complicações desta doença tão inconveniente! 
 
 
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