06/03/2021 às 09h44min - Atualizada em 06/03/2021 às 09h44min

A nova variante do coronavírus está nos devastando!

JOÃO LUCAS O'OCONNELL
          
O ritmo de disseminação do novo coronavírus foi surpreendentemente alto desde o início deste ano! Dados oficiais mostram que o número diário de novos casos e de óbitos em nossa cidade aumentou progressivamente desde o início do ano. Nos últimos dias, a cidade de Uberlândia bateu recordes negativos sucessivamente. Chegamos a ter, em um só dia desta semana, 26 novos óbitos em decorrência da COVID-19. Foram mais de 580 casos novos casos confirmados num só dia da semana! Estivemos com mais de 800 pacientes internados, sendo que 300 deles estavam sendo tratados em espaços que não eram os mais apropriados para o seu acompanhamento. Muitos pacientes não conseguiram ficar numa unidade de saúde e foram enviados para casa. Outros, que mereceriam uma cama num leito de enfermaria, ficaram internados em cadeiras ou macas espalhadas pelos corredores das Unidades de Atendimento Integrado. Muitos que precisavam de um leito de Unidade de Terapia Intensiva, foram atendidos em espaços que, certamente, não permitiram a aplicação do tratamento que teria sido mais apropriado.

A situação dramática e caótica vivida nos diversos ambientes da saúde pública da região nas últimas semanas foi inédita! Nunca antes na história da saúde pública de nossa região havíamos experimentado uma situação tão desconfortável e ameaçadora. Os hospitais privados também experimentaram enorme grau de estresse com a superlotação das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e das Enfermarias. Alguns deles acabaram tendo que fechar suas portas de Pronto Socorro por, simplesmente, não terem mais como internar os pacientes que necessitassem de internação...

Mas, afinal, quais foram as situações que culminaram com tamanha desgraça? Devemos colocar a culpa da nova onda da pandemia no empresário que não tomou as medidas necessárias de distanciamento e higiene manual e respiratória ao reabrir seu comércio? A culpa é das academias que propiciavam maior disseminação do vírus? A culpa é dos jovens que se aglomeraram imprudentemente e repetitivamente em festas na cidade e região? A culpa é dos governantes que desdenharam da gravidade da doença e da sua capacidade de causar superlotações em hospitais públicos e privados, que não souberam orientar e organizar as medidas de distanciamento e higiene manual e respiratória? A culpa é daqueles que, ao invés de servirem de modelos de conduta para o restante da população, acabaram desestimulando o uso de máscaras e incentivaram aglomerações?  Há quem diga que não! Há quem afirme que só estamos vivendo este caos pelo azar de termos sido atacados por uma nova variante do vírus...

Por um lado, isto é verdade mesmo. Só estamos vivendo este caos das últimas semanas porque fomos surpreendidos pelo surgimento e multiplicação sistemática de uma nova variante do vírus, muito mais transmissível, e que leva a uma doença ainda mais agressiva que o habitual. A doença, que sempre foi perigosa para os pacientes com mais de 60 anos de idade (ou com outras comorbidades), também ficou um pouco mais perigosa para pacientes mais jovens. Infelizmente, tivemos muitos casos de óbitos em pacientes com menos de 50 anos nas últimas semanas... Mas, apesar de não termos nenhum controle sobre o surgimento de novas variantes, temos sempre que lembrar que, quanto mais aglomerados estivermos, quanto menos distanciamento social fizermos, maior a chance de novas variantes virais surgirem e se multiplicarem entre nós. Assim, o surgimento desta nova variante pode ter relação, sim, com todas as hipóteses levantadas anteriormente.

Mas, por que a nova variante é mais agressiva? Através de uma mutação genética na proteína que funciona como “uma chave” para que o vírus entre na célula do hospedeiro (do Homem), esta nova variante viral acaba invadindo melhor as células do trato respiratório do paciente e, por isso, acaba se multiplicando muito mais. Assim, o indivíduo que entra em contato com esta “variante digna de preocupação” (variante P1 ou “variante Manaus”) acaba apresentando uma carga viral maior em suas vias aéreas superiores. Como o grau da doença é diretamente proporcional à agressão causada pelo vírus e à resposta inflamatória sistêmica desencadeada por ele, quanto maior a carga viral no trato respiratório superior, maior vai ser o transtorno gerado pela Covid-19. Ou seja, quanto maior for a capacidade do vírus em invadir a célula do hospedeiro para se multiplicar, maior a resposta inflamatória sistêmica e pior a chance de recuperação do paciente. Como se tudo isso já não bastasse para nos preocupar, ainda tem o agravante de que, quanto maior a carga viral das vias aéreas dos pacientes infectados, mais transmissível a doença fica...

Apesar da nossa tendência natural de queremos colocar a culpa neste ou naquele “irresponsável” pela chegada e disseminação desta nova variante, agora, não é uma boa hora para ficar apontado dedos. O país precisa evoluir e governo e população precisam encontrar soluções rápidas para sairmos desta crise sem precedentes na história recente do país. Por enquanto, seguir as orientações dos cientistas de mantermos o maior distanciamento social possível entre nós e de vacinarmos o maior número possível de pessoas do grupo de risco para má evolução da Covid-19 parece ser o mais sensato e emergencial a ser feito...


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