06/02/2021 às 08h20min - Atualizada em 06/02/2021 às 08h20min

Os hospitais estão lotados! Já chegamos no pico da segunda onda?

JOÃO LUCAS O'CONNELL
As UTIs dos hospitais privados de Uberlândia atingiram lotação máxima por vários dias nesta última semana. Nem durante o pico da primeira onda de disseminação do novo coronavírus, em julho de 2020, o sistema privado de saúde da cidade ficou tão sobrecarregado. O sistema público também acusou o golpe e vários leitos de UTI que haviam sido desativados precisaram ser reativados para suprir a demanda pelo aumento expressivo do número de novos casos ocorridos no último mês de janeiro.

Fazer previsões de como a pandemia iria se comportar sempre foi muito complicado. Desde o início, inúmeras expectativas, da maioria dos especialistas, foram sistematicamente contrariadas... Quando afirmei, em março do ano passado, nesta mesma coluna, que a pandemia iria ter seu pico em julho, mas que iria durar meses (provavelmente até o fim de 2020), fui criticado por muitos colegas e leitores que me consideraram muito pessimista! Mas, mesmo que eu pudesse ter feito diferentes previsões àquela época, nem em minha versão mais dramática eu teria imaginado uma segunda onda de disseminação da doença tão importante... A maioria dos especialistas também não imaginou uma segunda onda até maior que a primeira, ainda mais durante o pico do nosso verão...

É bem verdade que a liberação da circulação das pessoas a partir do segundo semestre de 2020, o aumento progressivo do número de aglomerações no transporte coletivo, nas empresas, nos bares, restaurantes, festas e o afrouxamento das medidas de higiene manual e respiratória por parte da população (como uso constante de máscaras) contribuíram, em muito, para esta segunda onda. Mas, como estas aglomerações de pessoas vêm acontecendo desde agosto do ano passado, como explicar um aumento tão importante de novos casos a partir de novembro? Muitas explicações são possíveis:

Primeiro, muitas pessoas que estavam reclusas (especialmente idosos e portadores de comorbidades) passaram a sair de casa com a queda progressiva do número de casos e o aparente fim da pandemia... Além disso, o movimento de compras, com shoppings lotados, e as celebrações das festividades de fim de ano também podem ajudar a explicar parte deste aumento de novos casos a partir de novembro. Mas, o aumento foi expressivo demais, para considerarmos esta maior aglomeração de pessoas em shoppings e em festas de final de ano como o único fator para explicar o fenômeno observado nas últimas semanas. Muito provavelmente, existem outras razões associadas.

Sabe-se que os vírus, em geral, têm a capacidade de irem se modificando ao longo do tempo. A maioria dos vírus e bactérias acabam modificando a sua estrutura molecular a fim de se tornarem mais resistentes e de se multiplicarem com mais facilidade. Existe a constatação científica que o novo coronavírus foi se modificando ao longo destes últimos meses e que novas cepas foram surgindo e se multiplicando, levando a uma capacidade maior de disseminação do vírus. Estas novas cepas de maior capacidade de transmissão explicam o aumento ainda mais significativo de casos em algumas localidades, como Manaus, por exemplo. Estas novas cepas de vírus, provavelmente, também se espalharam pelo país levando a um aumento do número de casos em outras regiões. Para a nossa sorte, aparentemente, apesar de mais transmissíveis, estas novas cepas do vírus não são tão mais agressivas ou letais. Pelo menos, por enquanto...

Outro fator que pode ajudar a explicar esta surpreendente segunda onda seria o fato de que estas pequenas mutações do vírus também consigam driblar o sistema imunológico de alguns pacientes. Assim, é possível que alguns pacientes que tiveram contato com o vírus na primeira onda, mas que não desenvolveram sintomas, possam desenvolver sintomas agora. Existe a preocupação ainda de que mesmo os pacientes que desenvolveram sintomas (e anticorpos) possam ter perdido esta defesa ao longo dos meses e estarem enfrentando a doença de novo. Entretanto, o número de reinfecções em pessoas que tiveram sintomas previamente é muito baixo para soar um alerta de preocupação em relação à esta hipótese neste momento.

Apesar de todas estas possíveis explicações, uma coisa é fato e talvez seja o principal motivo pela segunda onda... realmente, existe uma grande parcela da população que é sensível à agressão pelo novo coronavírus. E, por isso, enquanto 60-80% da população não tiver contato com o vírus (ou com a vacina), novas surtos de disseminação continuarão acontecendo... É por isso que vacinar rápido é tão importante! Enquanto isso não acontecer, não estaremos tranquilos.

Nos nossos próximos encontros, falarei mais sobre as diferenças entre os dois tipos de vacinas que estão sendo usadas para imunização no Brasil, sobre a eficiência delas em relação às cepas mutantes do vírus e sobre as novidades no tratamento da COVID, tanto em relação ao tratamento precoce quanto intra-hospitalar da doença.


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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