05/12/2020 às 08h00min - Atualizada em 05/12/2020 às 08h00min

Insuficiência Cardíaca, a doença que vitimou Maradona

JOÃO LUCAS O'CONNELL

Na última semana, o mundo do futebol chorou a perda de um de seus maiores ídolos. O argentino Diego Maradona morreu, aos 60 anos, vitimado por uma doença bastante comum, mas pouco divulgada e debatida nos meios de comunicação: a Insuficiência Cardíaca (IC). A IC atinge, hoje, mais de 3 milhões de brasileiros. Temos mais de 30.000 óbitos por ano causados pela doença no país! Além do impacto da doença na mortalidade, existe também o grave impacto na perda da qualidade de vida dos pacientes, no grande número de internações hospitalares que ela gera e na perda de capacidade de trabalho dos pacientes portadores deste mal.

Chamamos de IC a doença caracterizada por um conjunto vasto de sinais e sintomas, apresentados pelo paciente, decorrentes de uma falha na função primordial do coração: o de bombear sangue e nutrientes em quantidade suficiente para atender toda a demanda dos outros órgãos e tecidos. Os sintomas da doença não estão relacionados apenas à dificuldade do sangue em chegar em alguns órgãos, mas também ao excesso de acúmulo de sangue em outros (como nas pernas e nos pulmões, por exemplo). Em geral, os sinais e sintomas mais comuns são: falta de ar (especialmente aos esforços, mas também podendo acontecer ao repouso, especialmente com a cabeceira baixa); inchaço (especialmente de pernas); fraqueza muscular; sonolência; diminuição do volume de urina e outros. 

A IC pode acontecer por diversos motivos: 1) por diminuição da capacidade de bombeamento cardíaco. Neste caso, o paciente apresenta alguma patologia que leva a um enfraquecimento do músculo cardíaco – como um infarto, um problema importante nas válvulas cardíaca, e outros... 2) por uma diminuição da capacidade de relaxamento do coração. Isto é, existe algum problema na capacidade de enchimento do coração. 3) por um aumento exagerado na demanda de sangue e nutrientes pelos tecidos. Neste último cenário, o corpo está precisando de uma quantidade exagerada de sangue, pois o metabolismo do paciente está muito aumentado. É o que acontece, por exemplo, em situações como a IC associada a infecções sanguíneas, a anemias importantes ou secundária a algumas más-formações cardíacas ou dos vasos sanguíneos.  

Inúmeras doenças cardíacas podem culminar no diagnóstico clínico de IC. Em nosso meio, a maioria das IC resultam de sequelas no músculo cardíaco causadas por um infarto do miocárdio tratado de maneira tardia ou inadequada. Outras causas relativamente comuns são: a presença de isquemia miocárdica ativa (falta de circulação de sangue para o próprio músculo cardíaco); como sequela de inflamações cardíacas – como aquelas causadas pelas miocardites virais (como na Covid, por exemplo); como sequela de lesões progressivas causadas ao músculo pelo descontrole importante da glicose sanguínea ou de pressão arterial; pelo uso de drogas ou pelo uso abusivo de álcool; secundário à doença de Chagas, a problemas congênitos, a problemas valvares e a inúmeras outras situações.

O diagnóstico da IC é clínico. Ou seja, é realizado a partir da coleta da história e exame físico do paciente. Entretanto, o exame físico e inúmeros exames de sangue e cardiológicos podem ser úteis. Eles ajudam a estabelecer não só a gravidade do problema, mas também a estabelecer as metas e possibilidades de tratamento. Desta forma, podem ser solicitados eletrocardiograma, radiografia de tórax, ecocardiograma, teste ergométrico, holter de 24 horas, cateterismo cardíaco e outros. 

A partir de estabelecido o diagnóstico de IC e o grau de lesões já presentes no coração, pode ser feito um planejamento terapêutico adequado para cada caso. Nos últimos 30 anos, o tratamento medicamentoso da IC apresentou uma mudança muito importante e muito positiva. Hoje, já existem medicamentos e tratamentos clínicos de reabilitação que conseguem aumentar consideravelmente o tempo de vida e a qualidade de vida dos pacientes portadores de IC. Por fim, além do tratamento medicamentoso, outras estratégias de intervenção também podem ajudar em algumas situações. Assim, para determinados pacientes poderá ser indicada uma angioplastia coronária, uma cirurgia de revascularização, um implante de um marcapasso, um desfibrilador externo ou de um ressincronizador cardíaco.

Apesar de todo este avanço recente no tratamento medicamentoso e intervencionista da IC, é sempre importante lembrar que a morbimortalidade desta patologia continua significativa e que a evolução dos pacientes portadores de IC avançada é pior que a maior parte dos cânceres que conhecemos. A IC não escolhe idade, sexo, raça ou peso. A tentativa de prevenção mais eficaz é feita através da manutenção de hábitos de vida saudáveis: dieta adequada, prática regular de atividade física, manutenção de um peso adequado, controle do estresse, prática de meditação, sono reparador, não fumando e evitando excessos de carboidrato e de bebida alcoólica. Cuide-se! Procure um cardiologista para um acompanhamento pelo menos uma vez por ano. A doença tem prevenção e tratamento adequados.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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