07/11/2020 às 08h00min - Atualizada em 07/11/2020 às 08h00min

Acidente Vascular Cerebral: o que é? Qual a prevenção e o tratamento?

JOÃO LUCAS O'CONNELL
Na última semana, a morte de um ator famoso, que dava vida a um personagem marcante de um programa matinal – o Louro José – chamou a atenção da sociedade para uma doença bastante prevalente na nossa população: o Acidente Vascular Cerebral. Estatísticas recentes mostram que o Acidente Vascular Cerebral (AVC) (vulgo derrame cerebral) e o Infarto Agudo do Miocárdio são, juntas, as patologias que mais causam óbito no Brasil. Além do evento fatal, o AVC pode levar ainda a importantes sequelas que são responsáveis por internações hospitalares de repetição e perda de qualidade de vida e de capacidade de trabalho dos doentes vitimados por esta patologia. Um indivíduo que sofre um AVC pode apresentar sequelas definitivas como dificuldade para se locomover, para falar e compreender a fala e até para se vestir ou alimentar de maneira independente.
 
O termo Acidente Vascular Cerebral corresponde a uma patologia onde há o comprometimento súbito da função cerebral causado, na maioria das vezes, por limitações do fluxo de sangue para o cérebro. Aproximadamente 80% dos AVC são causados por uma obstrução de um vaso sanguíneo cerebral (AVC isquêmico). Outros 20% dos AVCs são causados por hemorragias (sangramentos) causados, na maioria das vezes, por rupturas de vasos intracerebrais ou por picos de hipertensão. O sangramento também causa diminuição do fluxo de sangue ao cérebro pelo aumento da pressão intracraniana provocada pelo hematoma e por espasmos dos vasos sanguíneos cerebrais adjacentes ao sangramento.
 
Em geral, o cérebro dispõe de energia para funcionamento adequado por apenas alguns minutos. Assim, ele é altamente dependente de um contínuo abastecimento de oxigênio, glicose e outros nutrientes para continuar vivo. A intensidade, a extensão e a duração da má circulação (isquemia cerebral) é que determinam os sintomas apresentados pelo paciente e se uma sequela será temporária ou definitiva. No caso de reversão total dos sintomas relacionados à isquemia, o evento é denominado Acidente Isquêmico Transitório (AIT).
 
O AVC pode acontecer com qualquer pessoa, em qualquer idade. Entretanto, alguns fatores de risco estão relacionados com a ocorrência dos AVCs, em especial, dos AVCs isquêmicos: a idade maior que 55 anos, o tabagismo, a hipertensão arterial, o diabete, o aumento dos níveis de LDL colesterol, o alcoolismo, o uso de anticoncepcionais orais, o estresse, a obesidade e o sedentarismo. Algumas outras doenças também predispõe o indivíduo a uma maior chance de AVC: algumas arritmias cardíacas, problemas nas válvulas ou nas paredes musculares do coração, a aterosclerose de aorta e de artérias do pescoço ou intracerebrais, doenças autoimunes (como lúpus e vasculites), estados de hipercoagulabilidade sanguínea e outras. Já os AVCs hemorrágicos estão intimamente relacionados com níveis elevados de pressão arterial e com a presença de fragilidades nas paredes dosvasos sanguíneos intracerebrais, geralmente causadas por aneurismas ou más-formações arteriovenosas.
 
Os sintomas mais comuns relacionados ao AVC são: diminuição súbita da capacidade de movimentação de uma parte do corpo (geralmente a face, o braço ou a perna), a perda súbita da capacidade da fala e do entendimento da fala. Outros sintomas como forte dor de cabeça, dor na nuca, vômitos, tontura, sonolência excessiva, confusão mental, dormências em membros, fraqueza generalizada e síncopes (desmaios) também podem ser sintomas iniciais do evento agudo.
 
É muito importante saber reconhecer a possibilidade de um AVC pois o tratamento precoce pode salvar vidas e diminuir sequelas. Para isso, o sucesso da evolução clínica do paciente vai depender da disponibilização do tratamento dentro das primeiras horas do AVC. O tratamento inclui a instalação de cuidados gerais (controle da pressão arterial, da glicose, da oxigenação, temperatura e da hidratação do paciente) e do tratamento específico da causa do AVC. Assim, nos casos de AVC isquêmico (aquele causado pela interrupção do fluxo sanguíneo cerebral) pode ser tentado a desobstrução dos vasos ocluídos. Para isso, utilizam-se fármacos capazes de quebrar o trombo oclusivo ou dispositivos mecânicos que podem ser utilizados em um ambiente adequadamente preparado para intervenções neuro-vasculares. 
 
Nos casos de sangramento intracerebral, a possibilidade de aliviar a compressão do tecido cerebral causada pelo sangramento (com uma cirurgia) deve ser discutida. Medicações e procedimentos para tentar diminuir o espasmo dos vasos sanguíneos e a pressão intracraniana também podem ser utilizados. E, por fim, estratégias para corrigir o problema que causou o sangramento (um aneurisma ou a hipertensão arterial) também devem ser objetivadas. 
 
Nos dias e semanas após o evento, várias outras medidas serão extremamente importantes para evitar sequelas graves que podem acontecer após um AVC. Assim, uma equipe multidisciplinar (composta por médicos, enfermagem, nutricionista, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psicólogo, cuidador, assistente social e outros) serão fundamentais para a instituição de cuidados que possam permitir a adaptação do paciente à sua nova realidade e a prevenção de novos eventos e sequelas. 
 
Assim, atualmente, existem protocolos bem estabelecidos que permitiram, ao longo dos últimos anos, oferecer ao paciente uma chance muito maior de sobrevida e de recuperação de um evento de AVC. Por isso, a rápida identificação dos sintomas e a rápida locomoção deste paciente até um hospital capaz de oferecer o tratamento ao paciente é fundamental e modifica substancialmente a mortalidade e a morbidade do paciente com AVC. Por fim, destacamos que, apesar dos inúmeros avanços obtidos com a melhoria do tratamento relacionado ao AVC, a prevenção com o controle dos fatores de risco que aumentam a chance do evento ainda é a melhor forma de diminuir a mortalidade e a morbidade relacionadas a esta doença. 

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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