03/09/2020 às 07h00min - Atualizada em 03/09/2020 às 07h00min

Bondade se aprende

ANA MARIA COELHO CARVALHO

Cora Coralina escreveu o emocionante poema "Bondade também se aprende". Começa assim: "Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice. E digo pra você: não pense. Nunca diga estou envelhecendo ou estou ficando velho. Eu não digo que estou ouvindo pouco. É claro que quando preciso de ajuda, eu digo que preciso. Também não diga pra você que está ficando esquecido, porque assim você fica mais". Há trechos como: "Sei que tenho muitos anos. Sei que venho do século passado e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velho não. Você acha que eu sou? Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo o que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes." É um longo e belo poema, que termina assim:" Digo o que penso, com esperança. Penso no que faço com fé. Faço o que devo fazer, com amor. Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende".

Versos tão simples e tão profundos, tão verdadeiros. Que nos fazem pensar na velhice e ter vontade de fazer alguma coisa boa, como abraçar alguns velhinhos. Eu, sempre que posso, vou visitar alguns em um asilo da cidade. Tem muitos por lá: alguns na cadeira de rodas, outros acamados, uns contando suas histórias de vida. Uns emburrados e sem conversa. Outros amargurados e que não abrem seus corações. Alguns emocionados por ter alguém segurando suas mãos. Um casal em que o velhinho gosta de cantar e tocar violão e a esposa é arredia e de cara fechada. Uma que adora bonecas, o quarto está repleto delas, dá vontade de ficar por lá brincando. Outra magrinha, de traços bonitos, que foi professora e que tem vontade de comer peixe bem temperado, pois reclama que a comida do asilo não tem gosto. E o Sr. Antônio, que tem vontade de alguém para sair com ele e dar uma voltinha no quarteirão. Alguns confusos, como a senhora bonitinha, de olhos brilhantes, que pede para procurar sua filha para levá-la de lá, pois não quer mais ficar estudando naquela escola. Todos limpinhos e bem cuidados. Muitos esperando os filhos que nunca vêm visitá-los; outros cercados por parentes e amigos. Ou por crianças, como vi um dia, quando uma escola levou as crianças para alegrarem os velhinhos. Uma boa ideia e um ato de bondade, mas que infelizmente não deverá ocorrer mais, nestes tempos de pandemia da Covid.

Enfim, ficar velho é o destino de todos nós, uma opção melhor do que morrer novo. E como disse Cora Coralina, mesmo tendo muitos anos, é preciso lutar, ter fé, fazer tudo com amor e bondade. E encontrar, cada velhinho à sua maneira, a melhor forma de viver os últimos anos. Como Florisbela, a mãe do cronista Jairo Marquez, da Folha. Ele conta que a mãe, já velhinha, sempre reunia a família para dar a bênção. Na hora da reza, invocava São Cosme, São Damião, São Miguel Arcanjo, São Jorge Guerreiro, Nossa Senhora. Até inventava alguns santos, para alongar a reza e o tempo do cafezinho. O autor comenta que velhos criam inteligentes maneiras para encompridar a prosa rala com os filhos que aparecem de vez em quando e com os netos que não se desgrudam dos joguinhos eletrônicos. Como a Florisbela, que emendava a reza com canções do Lupicínio Rodrigues. Todos ficavam mais um pouco ao som da música: "Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora..." Assim, a Florisbela conseguia, com bondade e sabedoria, exercer seu importante papel:  agregar a família e fazer com que os mais jovens cuidassem dela, o patrimônio vivo da sua geração.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 

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