22/08/2020 às 14h55min - Atualizada em 22/08/2020 às 14h55min

Afinal, por que não comemos "alimentos mais saudáveis"?

ANGELA SENA PRIULI
Tenho ouvido tanta gente comentar que engordou não sei quantos quilos na quarentena, que resolvi buscar mais motivos para não comermos de forma mais saudável, além da ansiedade óbvia que vivemos.

Comemos primeiro com os olhos... Este comentário foi atribuído a Marcus Gavius ​​Apicius, um gourmand romano do século I. Dois mil anos depois, pesquisas acadêmicas corroboram a afirmação de Apicius, pois uma equipe de professores de marketing do Fowler College of Business da San Diego State University (SDSU) estudou o impacto sensorial dos alimentos e a evolução da alimentação saudável.

O professor associado da SDSU, Dr. Morgan Poor, que estuda o impacto dos alimentos sobre os sentidos, sabe bem como apenas uma imagem de comida pode ter um efeito sensorial e emocional nos indivíduos. “Ver a foto de um hambúrguer, por exemplo, pode estimular outras imagens sensoriais, fazendo com que os indivíduos imaginem o gosto ou o cheiro daquele hambúrguer”, disse o pesquisador.

Infelizmente, a estética agradável e o fácil acesso aos alimentos não saudáveis ​​(como hambúrgueres), juntamente com o acesso limitado a alimentos saudáveis, podem estar levando a uma crise de saúde mundial. Na verdade, as estatísticas divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que 4 em cada 10 adultos no mundo estão acima do peso e 13% são obesos. A OMS também observou que as taxas globais de obesidade quase triplicaram desde 1975 e hoje, ressaltar ainda mais nossa preocupação e esforços em buscar soluções, é imperativo, visto que em uma situação de pandemia um grande grupo de risco são os obesos.

“A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor.. “

Lembra dessa música? Sim, buscamos prazer todo o tempo! E pode ser que tornar a comida saudável atraente seja a chave!

Uma solução para a obesidade pode envolver o foco no prazer de comer, o que poderia ser uma ferramenta para promover escolhas alimentares saudáveis. Pesquisa conduzida pelos professores de marketing da SDSU, publicada recentemente no Journal of Business Research, revelou que a associação de alimentos saudáveis ​​com experiências e emoções prazerosas levou a um maior interesse em comprá-los ou comê-los.

Os pesquisadores citaram uma campanha de marketing bem-sucedida de uma marca americana para reverter o declínio nas vendas de sua marca de mini cenouras. A campanha não enfatizou as qualidades saudáveis ​​das cenouras, mas envolveu o prazer sensorial derivado de comê-las. Por exemplo, a cor laranja neon, a textura crocante e o som da embalagem imitaram algumas das características de certos "junk food" e levaram a um aumento nas vendas de produtos de 10 a 12%.
 
Mais barreiras da alimentação saudável
Além do estímulo sensorial e hábitos, na mesma pesquisa, os cientistas também observaram que as duas principais barreiras para a construção de experiências prazerosas em torno de alimentos saudáveis ​​são tempo e dinheiro. É preciso tempo para buscar os ingredientes necessários para preparar uma refeição saudável ou encontrar um restaurante que sirva comida saborosa e saudável, onde é necessário dinheiro para comprar as refeições do restaurante ou os ingredientes (bem como as facas, panelas e outros utensílios) para criar o produto final. Com base em inúmeros estudos, os professores concluíram que o dinheiro, mais do que a dificuldade de encontrar os alimentos ou a falta de tempo, é a principal barreira para o acesso à alimentação saudável.

Castro fez uma extensa pesquisa sobre o acesso a alimentos saudáveis ​​(incluindo produtos frescos) para pessoas que vivem em bairros de baixa renda e com diversidade étnica. Moradores de comunidades carentes nem sempre têm acesso a supermercados e podem contar com lojas menores de alimentos, lojas de bebidas ou lojas de esquina para atender as suas necessidades alimentares. Essas lojas menores são limitadas na quantidade e diversidade de alimentos saudáveis ​​que podem oferecer. Pensando um pouco sobre essas barreiras, trago algumas ideias:
 
  • para quem trabalha com alimentos e/ou restaurantes: passar a ideia de alimentos e pratos com essa carinha de saudável e gostoso ao mesmo tempo;
  • para quem está em busca de melhoria nos hábitos: procurar ajuda de especialista na área para montar uma dieta (não regime!!) balanceada com alimentos fáceis de serem encontrados e com ideias de receitas delícia (humm...);
  • para aqueles que queiram ajudar as pessoas com dificuldade financeira: quando você for organizar ou participar de campanhas de arrecadação de alimentos, foque na doação de alimentos não perecíveis mais saudáveis, pois a composição atual da cesta básica (discussão para outro dia), por exemplo, tem grande quantidade de carboidratos, sal, processados (biscoitos, etc). Ideias de alimentos não perecíveis mais nutritivos: feijão, lentilha, ervilha seca, aveia, arroz integral, sardinha em lata, leite e outros.
 
Nossos hábitos e nosso contexto socioeconômico são responsáveis por 60% das mortes prematuras, incluindo as causadas por doenças crônicas associadas à alimentação. Mostrei acima essas duas barreiras para mais qualidade de vida e promoção da saúde. Agora, é fazermos o que estiver ao nosso alcance para conquistar esse cuidado com a gente e com o outro! Topa?
 
Fontes: Wided Batat, Paula C. Peter, Emily M. Moscato, Iana A. Castro, Steven Chan, Sunaina Chugani, Adrienne Muldrow. The experiential pleasure of food: A savoring journey to food well-being. Journal of Business Research, 2019; 100: 392 DOI: 10.1016/j.jbusres.2018.12.024
Parvanta, Claudia F. Health communication. Burlington, MA : Jones & Bartlett Learning, [2020]




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