01/08/2020 às 17h59min - Atualizada em 01/08/2020 às 17h59min

Por que o tratamento ambulatorial da Covid-19 é tão controverso?

JOÃO LUCAS O'OCONNELL
O chamado tratamento ambulatorial precoce da Covid-19 (com o uso de Hidroxicloroquina, Azitromicina, e Ivermectina e outros) se tornou motivo de debate muito caloroso entre médicos, cientistas e associações médicas do Brasil e do mundo nas últimas semanas. Mas, por que este tema se tornou tão controverso? Por que até agora não surgiram respostas para a real eficácia deste tratamento proposto?

A infecção pelo SARS-COV2 já contaminou mais de 2,5 milhões de pessoas por aqui, levando mais de 90.000 ao óbito. Em Minas, são mais de 120.000 casos confirmados e 2.600 óbitos até aqui. Estes números elevados de contaminados e de óbitos, o drama provocado pela superlotação dos hospitais, a interferência da pandemia em nossa rotina diária e na economia trouxeram muito pânico à população e também à boa parte dos médicos do país e do mundo. Começou-se então uma busca desesperada por uma ou mais soluções que pudessem ser utilizadas para o tratamento da doença.

Assim, várias drogas foram pesquisadas e algumas mostraram algum tipo de atividade contra o vírus dentro de um tubo de ensaio. Muitas das drogas testadas conseguiram inibir a replicação viral e trouxeram muito otimismo aos que estavam desesperados com a disseminação e o potencial maligno do vírus. Foi o que aconteceu com a Hidroxicloroquina, com a Ivermectina, com a Nitazoxanida e outras.  A divulgação de que estas drogas tinham atividade contra o vírus “in vitro” fizeram (e ainda fazem) com que inúmeros médicos e cientistas deixassem de lado as etapas necessárias para a validação de um tratamento e defendessem, fervorosamente, um tipo de tratamento medicamentoso que, até aqui, infelizmente ainda não se mostrou eficaz.

Mas, afinal, por que até agora não se chegou a um consenso sobre o potencial benéfico destas medicações? Por que muitos médicos e cientistas ainda insistem no potencial milagroso de algumas destas drogas para o tratamento da Covid-19? A crença e a confiança de boa parte da comunidade médica e científica no potencial benefício destas drogas se baseiam na realização de estudos observacionais e em descrições de grupos médicos que alegam terem tratado seus pacientes precocemente com algumas destas drogas e terem obtido grandes resultados, com altas taxas de “cura”.

Entretanto, quando avaliamos apenas descrições de tratamentos ou realizamos estudos observacionais podemos obter interpretações muito inadequadas sobre o real efeito das medicações, pois existem inúmeros fatores que podem confundir a nossa análise. Por exemplo, desde o início da pandemia, estamos observando, em Uberlândia, taxas de letalidade da Covid muito inferiores à média nacional (menos da metade). Ainda, a letalidade por aqui é menos de um terço da observada na Itália. Alguém poderia sugerir, portanto, que a água ingerida em nossa cidade tenha propriedades protetoras contra uma infecção mais grave pelo novo coronavírus. Entretanto, temos um grande fator de confusão nesta observação que é o fato de estarmos testando muito mais pacientes do que a média nacional e do que foi feito na Itália. Assim, como testamos e diagnosticamos mais pacientes assintomáticos ou com a forma leve da doença, nossa taxa de letalidade é, naturalmente, mais baixa (letalidade = número de óbitos dividido pelo número total de casos da doença).

Por mais absurda que esta ideia possa parecer, o que aconteceu com algumas das drogas atualmente propostas para o tratamento ambulatorial da Covid-19 foi muito parecido com isto.  Quando a pandemia atingiu alguns países como a França, os Estados Unidos e o Brasil, muitos grupos de médicos ficaram extremamente entusiasmados porque haviam conseguido diminuir as taxas de internação e de letalidade observadas na Itália. Os números oficialmente divulgados na Itália apontavam taxas de internação hospitalar da ordem de 20% e uma letalidade de 5 a 10%!!! Assim, a observação de que a letalidade em algumas localidades do Brasil, da França e dos Estados Unidos foi menor do que da Itália foi atribuída a um suposto benefício do tratamento precoce testado nestas localidades. O que, provavelmente, não é verdade. Outros estudos realizados fora que evidenciaram algum tipo de benefício da Hidroxicloroquina foram questionados por terem utilizado a medicação em uma parte de doentes menos graves e mais jovens do que os pacientes que não receberam a droga, tornando a comparação da evolução bastante injusta, beneficiando os mais jovens e saudáveis que usaram as drogas testadas.

Por fim, destaca-se que, mesmo que algum tipo de tratamento precoce possa funcionar, com certeza, ele não funciona nesta proporção milagrosa que muitos advogam. Explico: os dados oficiais de Minas Gerais mostram que a letalidade da doença em menores de 50 anos em Minas Gerais é, hoje (sem o uso de qualquer tratamento precoce milagroso), menor que 0,4%. Isto significa que em cada 1000 pacientes com menos de 50 anos que se contaminam pelo vírus em Minas, 996 sobrevivem. Desta maneira, fica extremamente difícil mostrar que qualquer droga tenha grande eficácia pois, para que isto aconteça, ela teria que garantir que mais de 999 pessoas acometidas pelo vírus evoluíssem com sucesso. Portanto, mesmo que qualquer droga faça algum efeito benéfico se administrada precocemente, ela provavelmente só teria sua eficácia comprovada em populações de alto risco para a Covid-19 como idosos, obesos, cardiopatas, diabéticos, hipertensos e outros.

Mas, apesar de que o debate em relação à eficácia do chamado “tratamento ambulatorial precoce” da Covid ainda vá permanecer aquecido até o surgimento de mais estudos prospectivos e “randomizados”, felizmente, alguns outros medicamentos já se mostraram extremamente úteis quando utilizados em pacientes internados em situação mais crítica (que necessitam oxigênio suplementar). Assim, o uso de corticoides, de anticoagulantes e de antibióticos pode ajudar muitos pacientes internados em situação crítica. Entretanto, o que mais ajuda na evolução favorável dos pacientes graves é ter a sorte de ser atendido por uma equipe multidisciplinar, competente, num ambiente hospitalar adequado e ter seu caso conduzido por um profissional médico capacitado para avaliar e aplicar todas as possibilidades terapêuticas já discutidas no mundo até aqui. Disto, a cidade está bem servida.




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