18/07/2020 às 14h26min - Atualizada em 18/07/2020 às 14h26min

A melhor amiga de Machamba

IARA BERNARDES
O interfone tocou: “Quem é?” – perguntei. “É o correio!” – respondeu o carteiro. Entre os 12 passos que me separavam da porta ao portão, fiquei pensando o que poderia ser. “Encomenda para Iara”. Fique curiosa, não havia comprado nada, pacote da Amazon, corri para abrir e me deparei com dois livros. A remetente, Carol Paes Leme, já havia me presenteado com livro antes, mas esses dois me chamaram a atenção, mesmo porque não estava esperando, além disso, ela havia me dito que o primeiro enviado seria uma bíblia para a minha escrita, mas que esses dois eu iria me deleitar na leitura. Carol é meio exagerada, mas tem seu crédito por ser extremamente inteligente e perspicaz, e por me presentar com livros, pois existem poucas coisas que goste mais que eles. Essa mulher, recém chegada na minha vida me ajudou a resgatar o que de mais precioso tenho dentro de mim: a vontade de devorar livros e viver as vidas que as histórias me contam.

Ao abrir o pacote, bati o olho e Guerreiras de Gaia me intrigou, já pensei nas minhas filhas, lutando por um lugar melhor, vivendo aventuras que gostaria de viver, mas reservei um olhar especial para Machamba, com aquela capa que parecia uma foto pintada, um quadro realista. Porém, não comecei a ler assim de cara, estava absorta nas outras tantas atividades que a rotina materna e da quarentena andam me reservando.

No último domingo, peguei aquele livro, tirei uma foto e pensei: é agora! Entre Cortella, Wandeli e Kardec, tirei um tempo só para Mirabai e me apaixonei. Em dois dias, com todos os afazeres que me consomem, não consegui parar de ler, mergulhei num mundo que não é meu, com cortinas não minhas, com quadros de africanas não meus, imagens de uma Virgem Maria que me vem recorrente na imaginação, com seus olhos bovinos, tristes, que não representam a mãe de Jesus que eu desenhei pra mim. Em dois dias, em meio a gritos de crianças, brincadeiras, tarefas escolares, aplausos para a filha que aprendeu a andar de bicicleta sem rodinhas e preocupações cotidianas, viajei para uma Fazenda no interior de Minas, mergulhei em uma piscina de pedras polidas no fundo, fui para Londres e lá vivi uma vida que não é minha, cheia de aventuras, beijos, cafés, advogados, corridas, quenianas, Bruno, Jostein, potrinhos, festas e o metrô. Pude sentir o ar frio inglês, o peso do casado e o vapor da respiração saindo. Também fiz um tour às terras da Antiguidade: Grécia, Mar Mediterrâneo, Turquia, Israel e Egito. Pude perceber a areia do deserto entrando pela barra da calça e a água do Nilo encobrindo meu corpo, um corpo que não era o meu, mas que sufocava como se fosse. Senti uma angústia que não é minha, mas que por dois dias foram e, também, o alívio de ouvir uma voz amiga.

Machamba é uma versão de quem eu poderia ter sido, mas não fui, exceto pela “Cabeça de Ovos Mexidos”. Ela foi por dois dias minha melhor amiga, talvez um alter ego, aquela versão oculta que vislumbramos viver, o sonho escondido em forma de mulher normal, um sonho que já se passou a hora de ser vivido, mas que fica feliz por saber que alguém viveu. Menos a parte das dores, essas não, pois tenho as minhas, dores doídas, que não podem ser transferidas, mas que quando vemos nos outros, nos doem as deles também, porque sofrimento para gente mentalmente sofrida se torna compaixão e repulsa, queremos ver logo o final feliz, para que assim tenhamos certeza que ele existe, sentimos a dor do outro, mas não queremos sentir, não podemos, não cabe mais um peso dentro das nossas próprias dores.

No entanto, Machamba não me conta como foi o final, ela é aquela amiga ingrata, que some no mundo e esquece de quem deixou para trás, afinal, ela é dessas que abandona, larga, esquece, não se apega, apenas nos deixa num enorme vazio, esperando por, quem sabe um dia, receber notícias. Porém, mesmo assim a amo, um amor de quem sentiu seu sofrimento, de quem se compadece, mas que não o quer para si, porque angústia dói, esperar o que não se sabe, machuca, ter o coração arrancado do peito por “Unhas Fumegantes”, sangra. Mas o que esperamos mesmo é sempre o final feliz. Desejo que ela tenha voltado para Daniel, que eles tenham vivido um verdadeiro amor, com filhos e, quem sabe, uma casa com cachorros, uma vida sem dores, porque por hoje e talvez por um tempo, Machamba é minha melhor amiga.




Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
Relacionadas »
Comentários »