20/06/2020 às 13h02min - Atualizada em 20/06/2020 às 13h02min

Número de casos Uberlândia x Minas Gerais, uma verdade mentirosa

JOÃO LUCAS O'OCONNELL
Nesta última semana, Uberlândia ultrapassou, oficialmente, Belo Horizonte como a cidade mineira com o maior número de casos de pacientes contaminados pelo novo coronavírus (o SARS-COV2) em Minas Gerais. Apesar da notícia ser verdadeira, é preciso tomar cuidado na interpretação deste dado, pois as estatísticas oficiais divulgadas estão distantes dos números reais. Isto porque os dados oficiais são baseados nos diagnósticos confirmados da doença respiratória e todos sabemos que o número real de infectados é muito maior do que os números oficialmente divulgados, tanto aqui, quanto em praticamente todas as cidades do país. 

O primeiro caso de Covid-19 no Brasil (a doença respiratória causada pelo SARS-COV2) ocorreu no final de fevereiro. Hoje, 3 meses e meio depois, já são mais de 1 milhão de casos no Brasil e, aproximadamente, 50.000 óbitos. Estes números já seriam, por si só, extremamente alarmantes. Entretanto, temos que lembrar que, dados de pesquisas científicas recentes realizadas aqui no Brasil indicam que o número real de infectados seja, pelo menos, 7 vezes maior do que os casos oficialmente diagnosticados. Isto acontece porque na maioria das cidades do país, desde o início da epidemia, só se realizam testes naqueles pacientes que evoluem mal e que precisam ser internados.

Assim, como apenas 5 a 10% dos pacientes infectados precisam ser internados, acabamos deixando de diagnosticar mais de 90% dos pacientes que foram contaminados pelo vírus: ou porque estes pacientes nem desenvolveram sintomas gripais ou porque eles apresentaram sintomas leves e acabaram ficando em casa até o desaparecimento dos sintomas, sem terem feito qualquer exame para confirmar o diagnóstico da infecção viral. Isto também explica porque algumas cidades têm um número de infectados muito maior do que outras cidades de tamanho similar ou até maior.

Uberlândia, por exemplo, tem apenas um quarto da população de Belo Horizonte. Mas, pelas estatísticas oficiais, o número de pacientes contaminados identificados aqui é maior do que o número oficial de contaminados na capital de Minas. Entretanto, o número de testes realizados em Uberlândia aqui é 17 vezes maior do que a média de testes realizados no Estado. Desta forma, entram em nossas estatísticas inúmeros pacientes que nem tiveram sintomas ou que tiveram sintomas muito leves, diferente da maioria das outras cidades do Estado e do país. Isto explica o porque a cidade tem tantos pacientes contaminados proporcionalmente e um índice de letalidade tão baixo (1,7%) quando comparados à letalidade nacional (5%). Ou seja, a falta de diagnóstico, e consequente notificação de centenas de casos da doença (especialmente dos casos mais leves ou assintomáticos) pode induzir a interpretações inverídicas. No nosso caso, uma maior capacidade de diagnóstico de casos que poderiam não ter sido diagnosticados em outras cidades, pode passar a ideia errônea de que tivemos, aqui, mais casos que Belo Horizonte e de que nossa letalidade seja muito menor do que a média nacional. Apesar dos números oficiais mostrarem isso, não é um dado compatível com o que realmente está acontecendo.

Um outro número que, apesar de assustador, pode estar ainda bastante subestimado é o número total de óbitos pelo novo coronavírus até aqui. Como havia (e ainda há) uma dificuldade para a realização de testes para a confirmação da Covid-19, muitos óbitos suspeitos nos últimos três meses no Brasil não puderam ter a sua causa devidamente confirmada. Assim, muitas mortes que foram descritas como decorrentes de “Síndrome Respiratória Grave” no atestado de óbito, podem, na verdade, terem sido relacionadas à Covid-19. Portanto, estima-se que o número real de óbitos no Brasil, em Minas (e até em nossa cidade) possa ser, pelo menos, 2 vezes maior do que as estatísticas oficiais apontam.

Mas, apesar de que é preciso ter muito cuidado para com a interpretação das estatísticas oficialmente apresentadas, infelizmente, temos que reconhecer que ocorreu um aumento significativo e indesejado no número de novos casos e de óbitos por Covid-19 em nossa cidade nas últimas semanas! Por diversas questões culturas, políticas e econômicas, o distanciamento social e as medidas de higiene manual e respiratória em nossa cidade acabaram ficando muito a desejar. E estamos pagando um preço muito alto pela nossa desatenção e falta de comprometimento! Vamos para que a população entenda a necessidade de maior comprometimento com o isolamento para que os números comecem a cair a partir de agora.



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