06/06/2020 às 13h41min - Atualizada em 06/06/2020 às 13h41min

I CAN’T BREATH

IARA BERNARDES
Hoje eu queria falar sobre os Georges, Joãos, Agathas e tantos outros negros mortos brutalmente pela polícia. Como eu queria conseguir falar sobre isso, mas não estou pronta, não tenho condições de discorrer a respeito: meu cérebro trava, pensamentos embaralham, revolta me consome e eu simplesmente não consigo respirar. Não como George Floyd, que foi sufocado covardemente, mas um sufocamento de revolta, tristeza, indignação e preocupação.

A cada vez que deito a cabeça no travesseiro, as piadas que ouvia na minha infância ecoam na memória, os insultos que eram dirigidos aos negros, a forma como os adultos gargalhavam daquilo e as crianças ali paradas, achando tudo normal, claro. Penso nas diversas vezes que ouvi os motoristas gritando: “pretinho vai virar piche”; sem nunca entender o que significava. Crescer ouvindo esses absurdos não me tornaram uma pessoa preconceituosa, racista, mas me fez menosprezar a seriedade e necessidade das lutas raciais na nossa sociedade.

Ademais, talvez pela naturalidade com que o racismo me foi apresentado, depois de adulta, há pouco tempo, inclusive, insistia em afirmar que as lutas raciais nos anos 2000 não passam de uma grande bobagem. Boba fui eu por não pensar que é exatamente o oposto, essas causas não só são importantes, como necessárias. Pois, as gerações anteriores foram tolhidas de exercer suas potencialidades pela cor de sua pele, e isso veio se perpetuando, a cada geração talvez reduzindo, porém sempre presente. Certamente, devido a isso que percebemos tão poucos negros em cargos de destaque na sociedade. Não porque são incapazes ou ineficientes, mas por não terem tido, ao longo de séculos e atualmente, as mesmas oportunidades que os brancos.

Por consequência, há muito pouco tempo que passei a observar os negros na sociedade, os cargos nas empresas, os alunos nas escolas caras, na programação televisiva e ao meu redor. Quantos deles batalharam mais que eu para conseguir absolutamente as mesmas oportunidades? Quantos chefes negros já tive? Quantos empresários e empresárias negras eu vi passar pela associação que trabalhei? Como não pude ser capaz de perceber isso antes?

Além disso, “I can’t breath” quando penso nos negros, amigos dos meus filhos, por imaginar que eles poderão ser tratados diferentemente dos meus só pela cor da sua pele, ou o quanto aquelas mães terão que se preocupar a mais quando eles forem juntos para uma balada e o quanto eles poderão ter menos oportunidades que os meus filhos. Então balanço minha cabeça, numa tentativa desesperada de criar uma solução e a única que me vem à mente é: educar para o amor!

Da mesma maneira que educamos nossas crianças para serem polidos, amorosos, estudiosos, devemos ensiná-los sobre sermos diferentes uns dos outros e amar o próximo independente de cor, orientação sexual, sexo e idade. A hora de começarmos a mudar a história do mundo é AGORA, dentro de nossos lares, cuidando para que os pequenos entendam a importância de lutar por causas que aparentemente não são nossas, mas que apesar de não parecer, são de todos. Mostrar para nossos filhos que nossas atitudes são capazes de mudar quem está ao nosso redor e como uma rede infinita, transformar vidas através do exemplo.

Por isso, comece agora, converse com seus pequenos sobre diversidade e a necessidade de sempre protegermos aqueles que amamos, sejam brancos, negros, amarelos, gays, velhos ou jovens. Seja exemplo, não perpetue as piadas da infância, não propague o ódio, seja respeitoso e gentil, pois quando formos todos capazes de lutar pelo bem daqueles poucos que nos rodeiam, vamos nos transformar numa imensa rede capaz de massacrar o preconceito e a falta de empatia.

PS.: Acabei escrevendo sobre. Ainda bem! Peço perdão por não ter compreendido tudo isso antes e dedico esse texto a Daiane, Theo, Alessandra, Ocinéria, Igor, Maria Eduarda,  Wallyson, Natália, Adiermison, Nicolas, Vanessa, Magda, Anderson, Denise, Sara e a todos meus honrados amigos negros.



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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